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É de tirar o chapéu!

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 14h29

Publicado pela 1ª vez em 18/04/2008
Outro dia, ao ler mais uma bela crônica do Ivan Ângelo na Vejinha, me bateu a saudade de uma pessoa muito querida. O texto era sobre a perda do antigo hábito de se usar chapéu. O Ivan recebeu recomendação médica para proteger a cabeça e decidiu fazer uma experiência. Numa caminhada pela rua, foi alvo de sorrisos e gentilezas e ficou feliz.
Assim era com o seu Miguel, um libanês que virou meu avô postiço. Ele era nosso vizinho quando morávamos no centro de Mogi e tratava a mim e a meu irmão como netos. Mais velho e sabendo que meus avós estavam bem longe, na Síria, me deixei adotar pelo seu Miguel e a mulher dele, dona Tufeha. Eu achava engraçado o nome dela, que em árabe significa maçã.
Todos os dias, seu Miguel punha o chapéu, pegava na minha mão e me levava para passear na praça Oswaldo Cruz, perto do nosso prédio. Nesse tempo, eu tinha cabelos compridos e encaracolados, que minha mãe adorava cultivar. Soube depois que ela queria uma menina. Não sei se foi por isso que demorei a conhecer a tesoura. Pelo menos as roupas não deixavam dúvidas: eram de menininho.
Mas um dia, com roupa branca, isso foi colocado em dúvida. Não tenho a cena na lembrança porque era muito novinho, mas relato a história que meu avô postiço gostava de contar às gargalhadas. Como sempre, ele pegou o chapéu e fomos passear. De repente, fomos abordados por uma desconhecida:
– Que linda a sua netinha! Como é o nome dela?
– Muito obrigado, mas não é netinha. É meu netinho.
– Menino? Com esses cabelos cacheadinhos? Não pode ser…
– É menino, sim!
A moça não se convenceu e a conversa não terminava nunca. Seu Miguel disse que eu fiquei muito bravo:
– Eu não sou menina, eu sou me-ni-no!
Na sequência, baixei a calça e mostrei a pequena prova, triunfante.
Eles se assustaram, mas logo estavam rindo da situação. Seu Miguel pediu, mas eu não queria guardar de jeito nenhum. Quando viu que curiosos já começavam a nos cercar, tirou o chapéu e cobriu o meu passarinho.
Algum tempo depois, finalmente, minha mãe decidiu cortar aqueles cachos e revelar minhas orelhas. Hoje eu é que demoro para ir ao barbeiro e ela reclama do cabelo comprido.
O que foi, está duvidando?
……………………………………………………………………………
Há exatos 30 anos, nesta data, eu era um garoto curioso, mas bem mais contido e prestes a completar 14 anos. Tão curioso que não queria saber de escola naquele 18 de abril de 1978. Queria ouvir a Rádio Bandeirantes para saber o que colocariam no ar no horário do Vicente Leporace. A notícia da morte dele, dois dias antes, deixou meu pai triste. Eu não era ouvinte assíduo do Trabuco, mas já me interessava por jornalismo.
Não tive autorização para faltar e só soube da novidade na hora do almoço. Meu pai elogiou o novo programa, mas disse que não seria fácil ficar sem o velho hábito de ter o Leporace como companheiro. Nos dias que se seguiram, ele sempre me contava alguma coisa que havia ouvido no Jornal Gente e com frequência citava o “nosso batrício” Salomão Ésper.
Só consegui ouvir com maior frequência no ano seguinte, quando passei a estudar à noite, já no segundo grau. Hoje, 30 anos depois, tenho a oportunidade de, de vez em quando, participar do programa. Fica aqui o meu abraço ao Zé Paulo, ao Salomão e ao Joelmir pelos 30 anos de Jornal Gente. A eles, eu tiro o chapéu, sem dúvida.

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