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Duas despedidas dolorosas

Haisem Abaki

25 de setembro de 2015 | 09h50

A primeira foi num sábado. A segunda numa quarta-feira. A primeira foi de um segundo pai, aos 90 anos, que me conhecia desde a Maternidade. A segunda de um amigo de apenas 32, que vi nascer e crescer no jornalismo. A primeira talvez fosse mais esperada, diante da chamada lei natural da vida. A segunda completamente inesperada, diante da natural expectativa de uma vida inteira pela frente. A primeira e a segunda são iguais no sentimento de vazio, ausência e saudade.

A primeira foi de um sírio, o melhor amigo de outro sírio, meu pai, que hoje também estaria a caminho dos 90. Um era de Homs, cidade do oeste da Síria, de onde ainda consigo sentir o gosto e o cheiro dos doces, apesar de saber da destruição causada por uma guerra insana. O outro era de Tartous, no litoral, de onde tenho a lembrança da imensidão do Mediterrãneo e dos navios atracados no porto.

Mas os dois só se conheceram aqui no Brasil, onde se refugiaram para tentar uma vida melhor, longe de conflitos e crises. O seu Hanna (João em árabe) veio antes. Acho que foi logo depois da guerra pela independência contra a França, em 1946. O seu Mohamed (nome do profeta do Islamismo) chegou em 1955, deixando um país livre do domínio estrangeiro, mas ainda sem liberdade.

Ficaram amigos em Mogi das Cruzes. Cada um com a sua “lodjinia”. Cada um com a sua religião. O cristão e o muçulmano se viam praticamente todos os dias e se ajudavam em tudo na nova terra. Depois formaram suas famílias e se visitavam aos domingos em almoços e cafés da tarde, às vezes as duas opções.

As festas religiosas também eram uma ocasião para respeito mútuo e confraternização. Na Páscoa e no Natal, era uma obrigação feliz a nossa visita à família do seu Hanna. No Dia do Sacrifício e no fim do jejum do Ramadã, a presença do seu Hanna com a família era sagrada na nossa casa.

Nos encontros, os dois “turcos” discutiam tudo, da política às memórias de pessoas, lugares e situações da Síria. Eram conversas saborosas, que não tinham hora pra acabar e sempre com muitas risadas. No dia em que fui me despedir do seu Hanna, foi inevitável a lembrança das parreiras da casa dele, de onde saíam folhas de uva que rendiam deliciosos charutinhos recheados. E foi ele também que me apresentou uma novidade tecnológica chamada controle-remoto. “Agora num brecisa levanta bra mudá de canalll”.

Ainda estava pensando em tudo isso quando fui surpreendido pela notícia da partida de Gino Bardelli. Choque, impacto, inconformismo. Tudo junto e misturado. De cara, o pensamento me trouxe de volta nossos animados debates sobre o Palmeiras. Palmeiras, não. Palestra! No último, em julho, ele havia me convidado pra colaborar no projeto de um livro sobre esse tema tão apaixonante para nós. Três meses antes, também havíamos descoberto muitos pontos em comum entre o avô dele e meu pai.

E veio ainda a lembrança de intermináveis papos sobre rock, muitos deles nas redações onde trabalhamos, além daqueles, no ar, nas madrugadas com Geraldo Nunes e Norberto Notari, que eu acompanhava como ouvinte. O Black Sabbath começou a tocar na hora na minha cabeça.

O Gino era um sujeito raro, que reunia ao mesmo tempo calma, indignação, ironia e às vezes um falso mau humor. Sem contar o companheirismo, a solidariedade e a disposição para o trabalho. E era sempre demonstrando alegria que, ainda garoto, encarava diariamente as “variações” de minhas frases mais infames dirigidas a ele. “Vá, Gino!”, na hora em que ele ia embora. “Ah vá, Gino!”, nos momentos em que fazia seus sarcásticos comentários e eu fingia discordar. Uma vez me distraí no instante em que ele se despedia e o Gino ficou lá, paradão na minha frente. Disse que estava esperando pelo bordão e só saiu depois de ouvir o “vá, Gino!”. Repeti meu adeus particular pela última vez apenas em pensamento diante do caixão.

A primeira despedida, no sábado, foi difícil. A segunda, na quarta-feira, foi quase impossível. Mas as duas me fizeram ver como o Céu deve estar beeeeem mais divertido agora. Já que ainda estou por aqui, me deu vontade de comer charutinho de folha de uva e ouvir Black Sabbath. Pode ser ao mesmo tempo. Começando por “Changes”. Como diz a letra, também estou passando por mudanças…

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