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Dois porquinhos sem medo de ventania

Haisem Abaki

25 de fevereiro de 2013 | 15h05

Publicado pela 1ª vez em 14/11/2012
A historinha a seguir antecede uma “tragédia” anunciada. Entre aspas mesmo, para não ser confundida com tragédia, que é uma coisa bem diferente. Não costumo dedicar este espaço a assuntos muito sérios porque a vida já é suficientemente chata. Mas depois de ouvir, ler e ver a cobertura jornalística da quase inevitável queda do Palmeiras para a Segundona, resolvi chutar essa intenção pra escanteio.
Nos últimos dias, tem sido comum na imprensa falada, escrita, televisada, conectada e berrada, o uso de termos como “morte”, “enterro”, “degola”… Sem contar as expressões do tipo “Palmeiras agoniza…”. Perdi meu pai de maneira brutal e vi meu irmão agonizar. Sim, estou sendo bem direto nesses assuntos tão delicados, sobre os quais nunca escrevi, apenas para dizer que são situações completamente diferentes.
Com os dois, que me fazem falta até hoje, aprendi que a vida é feita de tropeços e superações. Ao me ver bravo por causa de futebol, meu pai sempre dizia: ´”é só um jogo”. E meu irmão, que se foi aos 18 anos sem deixar de ser criança, nunca parava de sorrir.
Demorei, mas já faz tempo que entendi que torcer por 11 caras correndo atrás de uma bola não é uma questão de vida ou morte. Vale a brincadeira, vale a gozação, vale a piada, vale a frase feita, vale o trocadilho infame… Vale quase tudo. Só não vale matar ou morrer.
E a lição mais recente veio de uma menina que conheço há quase 14 anos. Ela nunca ligou muito pra futebol, ao contrário do irmão, que tem 9 anos de vida e quase isso como torcedor. Sério! A devoção dele já era manifestada no berço.
A garota começou a se interessar pela bola nos últimos três ou quatro meses. De simpatizante, virou uma palmeirense apaixonada, sempre acompanhando todos os jogos e vestindo a camisa do time dentro e fora de casa. Diante da pergunta do motivo disso tudo, ela responde, simplesmente, que o time precisa de apoio muito mais nas derrotas do que nas vitórias. Para o irmão dela, verdinho desde o tempo das fraldas, nada mudou também.
Projetei a atitude dessas crianças para a vida e concluí que não vão abandonar um parente, um amigo ou qualquer outra pessoa só por causa de um tropeço. Aí, foi inevitável a lembrança do moleque que eu fui. Quase senti vergonha de mim mesmo. Virei palmeirense aos oito anos, em 1972. Era um tempo de vitórias e títulos frequentes. Além dessa moleza, tive um incentivo a mais. Veio de um corintiano, dono de uma bicicletaria perto da loja do meu pai, no centro de Mogi. Eu passava por lá e ele me chamava de “palmeirense” sem eu ser, só pra ter alguém pra provocar. Dois anos depois, em 1974, com o título do Palmeiras sobre o Corinthians, arredondando 20 anos de fila no Paulistão, ele se arrependeu de ter criado aquela cobrinha verde, já com 10 anos, tirando sarro dele. Eu passava lá e ele me botava pra correr…
É assim que vejo o futebol, como brincadeira para fazer e receber. A gangorra sobe e desce. Não fico feliz com o rebaixamento, mas ele me trouxe ainda mais orgulho dessas duas crianças que aprenderam essa lição muito antes de mim. A porquinha e o porquinho lá de casa estão firmes como nunca e não se abalam com qualquer ventania. Tenho dois filhos de primeira.

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