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Distraído, interesseiro e egoísta

Haisem Abaki

15 Maio 2015 | 21h31

Já vou logo avisando: se alguém me contasse a historinha que vem a seguir eu não acreditaria. Desconfiaria de pelo menos parte dela, que é bem estranha. Fica a critério de cada um. Quem me der crédito pode incluir o relato na editoria “coisas que só acontecem comigo”. Então, vamos lá…

Fiz a habitual corrida e estava todo desmilinguido depois de uns 12 quilômetros. Era quase uma bica de tanto suor. Parei num lavatório do parque, como de costume. Água nas mãos, braços, rosto, pescoço e, de leve, no cabelo, pra não comprometer o penteado. Com o canto do olho, vi uma mocinha se refrescando ali, delicadamente.

Não sou muito observador, distraído mesmo, ainda mais numa hora como essa, quase me desmanchando, apesar do prazer do trajeto cumprido e comprido. Só percebi que ela estava com um agasalho preto. Ah, sim, também com um shortinho rosa e preto, ou grafite, sei lá, não presto atenção nessas coisas. Mais nada… Loira com rabo de cavalo. E só… Unhas pintadas numa coloração escura, azul, eu acho, mesmo não tendo visto nada. Tênis com cores fortes. Verde e laranja? Talvez… Não sou detalhista.

Meus fones estavam com o som alto e ela ouviu “a moça do aplicativo”, uma voz que fala comigo enquanto corro, me dando informações sobre o tempo, a distância e o ritmo da atividade. Ela (refiro-me agora à mocinha de carne e osso, não que eu tenha reparado nisso também) puxou papo, perguntando como era o monitoramento, já que ela corria sem aquele recurso.

Com o meu vasto conhecimento tecnológico, expliquei o funcionamento e ela quis ver como era diretamente no celular. Pareceu ter gostado e disse que iria baixar o aplicativo. Estava me preparando para a despedida quando ela continuou a conversa num tom óbvio, dizendo que “hoje tá tudo no celular”. Respondi com um efusivo “é”. Aí ela falou que eu uso o aparelho pra tudo. Estranhei porque não foi uma pergunta e sim uma afirmação. Soltei outro eloquente “é”.

– Eu te vi na floricultura no sábado. Você tava escrevendo um cartão e fazendo colinha do celular.

Fiquei surpreso e mandei ver o terceiro “é”.

– Você escolheu rosas colombianas, muito bonitas.

Outro “é” da minha parte.

– Você faz desenhinho nos cartões que escreve?

O “é” que ia sair con-ge-lou. Fiquei espantado. Uma estranha havia descoberto meu “segredo”. Pessoas especiais pra mim sempre recebem carinhas nas mensagens, figurinhas que hoje chamam de “emoticons”. Faço isso desde criança e meus “desenhos” nunca mudaram. Até hoje, parecem os de um menino de quatro ou cinco anos. Puro talento!

– Homem quando dá flores tem algum interesse. Ou então aprontou alguma…

Demorei um pouco pra reagir, paralisado, mas disse que “as duas alternativas podem estar corretas”.

Recebi um belo sorriso. Bom, acho que foi um sorriso, porque, como disse, nem observei direito a interlocutora. Ela se despediu com um “boa noite e até domingo” e deve ter notado a minha cara de “hein?!”.

– Você sempre corre aqui no domingo de manhã!

Foi meu último e espalhafatoso “é” antes do “tchau”.

Na volta pra casa, ainda embasbacado com aquele diálogo, comecei a pensar nos momentos em que presenteei alguém com flores, bombons, cestas de café da manhã… Percebi que, muito mais do que quem recebe, isso tudo faz bem a mim mesmo. A moça do parque tinha razão: sou interesseiro.

E também me interesso com facilidade por quem me faz pequenos gestos. Já fico contente com um biscoitinho, chocolate e, principalmente, balas de goma (se for aquela azedinha, me derreto todo). E se gostar de criança e de cachorro e tiver uma palavra de carinho é PT, não o partido, mas perda total. Hashtag “fica a dica”.

Se a faladeira moça do parque cruzar o meu caminho de novo, vou assumir que sou interesseiro e egoísta. Faço essas coisas porque me sinto bem e pronto. Só penso em mim mesmo. Eu me amo acima de tudo.

Mas como vou reconhecê-la se nem reparei direito? Ah, sim, o shortinho rosa e preto. Só uma referência… Nada de flores nem carinhas. Hashtag “não me complica!”.