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Direto da boca do forno

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 14h55

Publicado pela 1ª vez em 15/08/2008
Farinha de trigo, água, açúcar, sal e fermento. Não me perguntem como, mas juntando esses simples ingredientes se faz um delicioso pão sírio. Acho que fui apresentado a esse alimento assim que saí da mamadeira.
Quem conhece um pouco da culinária árabe sabe que há iguarias que podem ser apreciadas apenas com pão sírio, sem talheres, sem culpa e sem pudor. É o caso, por exemplo, do homos (pasta de grão de bico), da pasta de berinjela assada, da coalhada seca e, para quem gosta, do quibe cru.
Um velho amigo dos meus pais, quando se sentava à mesa na nossa casa e via todos esses pratos, dizia que isso era “comer arabicamente”. Aprendi a me alimentar assim desde criança, mas já revelava uma certa face do “ser do contra”, que passaria a me acompanhar mais tarde.
Diferente de todo mundo, eu abria o pão e o virava ao contrário, com a casca para dentro. Até hoje sinto uma espécie de alergia no contato direto dos dedos com o lado de fora do pão. Em casa ninguém estranha mais, mas me divirto quando vou a algum restaurante árabe e as pessoas olham para mim, talvez me achando um coitado que não sabe pegar no pão direito.
Um dia, o pão sírio virou ganha-pão. Um velho padeiro, cansado das andanças, decidiu não ir mais de casa em casa para realizar as vendas. Meu pai, já aposentado, achou que aquele trabalho seria uma boa forma de não ficar parado, ganhar um dinheirinho e, principalmente, arranjar um jeito de fazer o que mais gostava: visitar amigos e conversar com eles.
O velho padeiro continuava a pôr a mão na massa. Ele produzia o pão em Guaianazes. Meu pai pegava a Brasília dele e ia buscar as encomendas. Depois, fazia o caminho de volta para Mogi das Cruzes, passando por Ferraz de Vasconcelos, Poá e Suzano, vendendo pães para os “batrícios”. Todos, fossem cristãos ou muçulmanos, compravam e aproveitavam para se deliciar com as histórias “do turco”. Com o tempo, as encomendas foram aumentando e ele estendeu as entregas para São Miguel Paulista e Itaim Paulista.
Aos 14 anos, já mais perto dos 15, virei entregador de pão. Acordava de madrugada e ia com meu pai. Nesse tempo, adquiri um hábito que passou a fazer parte da minha vida, como pão sírio. Eu já ouvia rádio à distância, mas com a maratona das entregas comecei a prestar mais atenção. Ouvíamos o Pulo do Gato, o Primeira Hora e o Jornal Gente. Meu pai aumentava o volume e não se cansava de repetir sempre a mesma frase:
– Presta atenção no que eu vou falar. Esse pão que a gente entrega alimenta o corpo, mas a cultura, a informação e a fé em Deus alimentam a alma. Não adianta só ter o pão, entendeu?
– Entendi.
A música do jornal Primeira Hora me agradava muito e logo me acostumei com as vozes de Walker Blaz, Ferreira Martins e Lourival Pacheco, que nos entregavam notícias quentes bem cedinho.
Tirando o aniversário do meu casamento e de pessoas próximas, não sou muito bom para datas. Todas essas lembranças voltaram quando um amigo perguntou há quanto tempo eu estava no comando do Primeira Hora. São exatos oito anos, completados agora no começo de agosto. Seguindo nas contas, concluí que já são 22 anos de jornalismo, a metade da minha idade.
Farinha de trigo, água, açúcar, sal e fermento. Não me perguntem como se faz, mas juntando esses simples ingredientes tento ganhar o meu pão. Às vezes, tenho vontade de virar certas notícias ao contrário, com a casca para dentro. Gosto de servi-las sem talheres, sem culpa e sem pudor, “arabicamente”.

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