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Diálogos solitários

Haisem Abaki

10 Agosto 2018 | 13h39

Na rua, uma simpática moça passa por mim, abre um sorrisão e balança a cabeça como se estivesse me dizendo um “sim”. Retribui com muita originalidade repetindo os mesmos gestos. Ela seguiu em frente, na direção de uma travessia de pedestres e deu uma olhadinha para trás com a “tréplica”: outro sorriso e mais um balanço em que percebi seus cabelos longos.

Quando me aproximei, o semáforo fechou e ela já estava do outro lado. Estou dando um tempo nas corridas, de livre e espontânea obrigatoriedade médica, por causa do joelho esquerdo detonado. Hummm, isso já dá outra história e não é o caso de contar aqui. O passo mais lento deve ter contaminado o raciocínio e a percepção de algumas situações. Demorei pra entender o que tinha acontecido.

Primeiro achei que podia ser a camiseta laranja de corrida (agora caminhada). Já percebi que me olham quando estou com ela e a bermuda preta. E não sei o motivo de tanta atenção. A cor é tão discreta, nada berrante, laranjinha básico só…

Ou então já poderia ser o reconhecimento do meu esforço muscular acadêmico. Outra gentil imposição médica para o joelho bugado. Fico tão feliz com aqueles ferros… E, já que não tem jeito, virei um aluno aplicado e comecei a malhar “as outras partes”. Os olhares (no plural mesmo) podem ser por isso também.

Ah, mas ainda havia outra “hipótese” para o desafiador “estudo de caso”. Poderia ser a cabeleira com novo design. Sim, tá todo mundo falando. Virei assunto capilar de amigos, amigas e gente que me vê pelo rádio, agora com imagem. Ainda mais depois que alguém especial e especialista na arte de fazer cafuné pegou na minha mão e a conduziu nas orientações práticas de um novo penteado, mais “despojado”. E fez a “combinação perfeita” me dando um perfume “marcante” de presente…

Foi quando percebi que podia ser tudo isso ou nada disso. Fiquei sem jeito ao sacar que a moça do belo sorriso e do “sim” com a cabeça havia me flagrado em um ato cada vez mais frequente e que faço naturalmente, às vezes sem notar nada. Nem sei direito como isso começou, mas conheço a origem: é hereditária. A “culpa” é do meu pai. Uma vez alguém comentou o que eu estava fazendo e não dei muita importância, achando que não era bem aquilo.

Meu pai é que tinha essa mania, que quando eu via ou ouvia considerava muito esquisita. Parecia coisa de louco… Ele “conversava” comigo e com meu irmão mesmo sem a nossa presença no ambiente. E com meu irmão, que partiu cedo da vida, os “diálogos” nunca foram calados. Eram sempre conversas de um pai com filhos ainda crianças, por mais barbado e distante que eu estivesse. Soube uma vez que ele também “falava” comigo enquanto me ouvia no rádio. Depois, passou a bater “papos retos” com os netos, além de ter simplesmente Deus como “interlocutor”.

E foi isso… Quando a bela mocinha passou por mim, me pegou em pleno “diálogo”, falando sozinho com a neta daquele cara que falava sozinho com quem mais amava. Ela deve ter pensado que era coisa de louco. Mas é exatamente assim. Eu converso com meus filhos quando eles não estão comigo. Com a “lindinha” e o “semvergonhudo”. Ih, será então que eu chamei a moça de “lindinha”? Sem querer?

Se fiz isso ela parece ter gostado. Ou então me deu um desconto. Talvez por causa da camiseta laranja. Ou da forma musculosa de cinquentão de academia. Ou pela vasta cabeleira… Ou simplesmente pelo fato de amar muito os meus filhos, mas ter aprendido com alguém especial a também gostar mais de mim e me cuidar. Alguém que entrou na minha lista de “diálogos” solitários. Porque eu só falo sozinho com quem amo. É muito bom ter alguém com quem falar sozinho.