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Deslogar para dialogar

Haisem Abaki

06 de março de 2020 | 13h24

– Você parou de escrever no blog?

– Cadê você? Não tenho encontrado mais crônicas novas.

– Estou com saudades das suas histórias. O que aconteceu?

Fiquei um tempo ausente aqui e recebi com alegria várias mensagens de gente que não conheço pessoalmente perguntando o que houve. Coloquei aí em cima algumas, editadas para retirar belas palavras, mas que se fossem reproduzidas pareceriam autoelogio, como o de um governante de plantão, nesta e em outras épocas, arrotando maravilhas sobre as realizações do próprio umbigo.

Fiquei ausente aqui, sim, mas não em silêncio. Precisei de um tempo pra tocar outros projetos e nem percebi o tal do tempo passar. E, embora tenha muita gente amiga e parceira, de certa forma, foi uma “desintoxicação”. Às vezes de mim mesmo, para repensar algumas temáticas. Em outras, um “detox” com um distanciamento de quem (uma minoria barulhenta) tira conclusões “incontestáveis” antes mesmo de ler a mensagem.

Esses ainda aparecem de vez em quando no rádio, mas já os vejo em menor número. Ou talvez a maturidade esteja fazendo algum efeito prático, me permitindo ter mais compreensão diante do incompreensível. Isso não quer dizer desdém ou “tô nem aí” da minha parte. Também estou sujeito a cometer erros e posso ser criticado. Só não tenho desonestidade intelectual e disso (uma das poucas coisas) me orgulho.

Eu critico o governante de hoje, logo sou petista, comunista, esquerdopata, defensor da corrupção e devo ir pra Cuba.

Eu criticava o governante de ontem, logo devia ser um tucano com saudade das armações perdidas e inconformado com a chegada do povo ao poder.

Eu criticava o governante de anteontem, logo devia ser um esquerdista irresponsável, sempre apostando no quanto pior, melhor e sem comprometimento patriótico com a estabilidade política e econômica da nação.

E assim há sempre alguém para tirar conclusões e dar sentenças definitivas, sem possibilidade de qualquer recurso à inteligência, ao bom senso e a um mínimo de dignidade.

Nesse período de ausência aqui, vi episódios de ódio e intolerância se multiplicarem e algumas pessoas soltarem suas feras internas, inflamadas pelo “exemplo” que vem de cima. Nesse caso, assim como na corrupção e nos desmandos de ontem e hoje, o buraco é sempre mais em cima. Vem das altas esferas. Até de quem acha que a terra é plana.

E sempre tem gente no entorno para rir das “piadas”, aplaudir as bravatas e se deliciar com a macheza das ofensas dirigidas aos “inimigos” da “nova velha era”. Porque o “ídolo” não tem culpa de nada, logo é vítima das injustiças de adversários saudosos de outros tempos.

Mas essa ausência aqui também foi um tempo de amar mais, viver mais, estar mais perto de quem realmente importa, se divertir mais, falar mais besteira e rever gente querida. Porque isso faz toda a diferença nessa vida que passa sem a gente perceber enquanto perde tempo discutindo questões menores e defendendo heróis, salvadores e mitos indefensáveis.

Então, estou de volta aqui e seguindo adiante com voz no rádio e na vida, logo estou atento e pronto para as “renovadas” intolerâncias que podem ressurgir nesse caminho.

E retorno tentando ajustar a dose de dureza do dia a dia para ter também a leveza de se desconectar de vez em quando, logo isso é saber viver. Dialogar e deslogar de tecnologias que metralham a alma é mais do que preciso, logo sou alienado (?). Faz bem e desintoxica, logo rejuvenesce até quem tem ideias atrasadas. Vai por mim, mesmo discordando! Vou ali, mas desta vez volto logo…