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Desconfiança deslavada

Haisem Abaki

04 de outubro de 2013 | 20h39

O garotaço lá de casa apareceu com uma dúvida existencial que demorei quase o dobro da idade dele para ter. “Por que elas demoram tanto no banheiro?”, quis saber o carinha de dez anos durante mais uma looooonga espera pela mãe e pela irmã. Dei uma resposta que foi um misto de conformismo e terrorismo. “Vai se acostumando porque vai ser assim a sua vida inteira”.
Contei a história no trabalho para “a turma do outro lado” e percebi uma união entre elas na resposta. “E por que vocês não demoram quase nada? Não devem nem lavar as mãos…”, responderam várias representantes da “catiguria”.
Fiquei incomodado com a generalização. Como podem dizer que todos nós, da espécie troglodita, não lavamos as mãos? Isso sem contar coisas muito piores que ouvi, sobre não enxugar o, o, o… Ele mesmo.
Então, a conversa agora é com a mulherada, mas os companheiros de discriminação também podem ler. Para demonstrar total desprendimento e ausência de corporativismo, resolvi contar a vocês, minhas queridas, o que se passa “do lado de lá” do banheiro de onde todas (eu disse todas, mas sem generalizar) vocês demoram uma eternidade pra sair.
Vou começar por mim mesmo. Faço tudo direitinho, sem um pingo de deslize ou desvio, entenderam? Depois, ponho uma boa quantidade de sabonete, esfrego bem as mãos, lavo e seco. Resumindo, o homem perfeito (no banheiro) que vocês pensam não existir, que imaginam ser apenas um sonho… Esse cara sou eu! E vejo outros integrantes “da classe” que fazem a mesma coisa, se bem que não sou de olhar para os lados nessas situações.
Tá bom… Alguns têm um jeito meio desleixado. Abrem a torneira, colocam as mãos na água corrente, mas sem sabão e esfregação. Depois, enxugam “mais ou menos”, saem e cumprimentam o primeiro que encontram pelo caminho. Tenho um amigo que segue esse ritual e, ao apertar “umidamente” a mão de alguém, já avisa para o sujeito ficar tranquilo “porque é água”.
Existe ainda uma turma encanada, a minoria da minoria, que tem medo até de maçaneta. São tipos que também lavam as mãos, mas ficam desconfiados e levam papel toalha até a porta. Conheço dois que adotaram a manobra num surto de gripe e nunca mais abandonaram a mania. Um deles, completamente viciado, chega a usar o mesmo recurso para abrir a torneira, com receio de contaminação. Considero tal prática um tremendo exagero, uma estupidez, uma babaquice. E já disse tudo na lata, depois de correr atrás dos caras pra “aproveitar a viagem”. Pra que colocar a mão na maçaneta se alguém já fez o serviço por você?
E assim termina essa história completamente limpa e enxuta. Nada mais tenho a declarar… E, se alguém continuar a me pressionar, eu lavo as minhas mãos.
A vocês, queridas leitoras, deixo um beijo e um carinhoso e respeitoso afago. Fiquem tranquilas porque, além de limpinhas, desde criancinha e até hoje, sempre me disseram que tenho mãos macias.
Despeço-me também dos companheiros de mictório injustiçados, que sempre defenderei de ataques generalizados e deslavados. Fiquem com o meu mais efusivo, caloroso, firme e enérgico aceno. Aceno já está bom.