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Depressão, desta vez, não!

Haisem Abaki

04 de julho de 2020 | 12h04

Já são mais de 100 dias de ausência de pessoas amadas, de uma conversa olho no olho, de um abraço mais longo e apertado. Menos mal com a “proximidade” permitida pela tecnologia que conforta, mas não afaga. Que encurta distâncias, mas não toca. Que faz ver, mas nem sempre enxergar.

Do outro lado da linha, ouço a voz grave do carinha (na verdade carão) que é minha versão melhorada e, depois de saber que está tudo bem, puxo um papo sobre as aulas on-line. Ele fala pouco, mas repete que está tudo bem em mais um período de provas. Sem noção do tempo, pergunto se cresceu ainda mais e ouço um riso maroto dizendo que não. A última palavra é dele: “Também!”, como resposta a um “eu te amo”. O garoto não é de completar frases.

Em outra ligação, ouço a vozinha doce de menina de quem já é mulher. Ela me fala de trabalho, da rotina da faculdade on-line, da tristeza com tantas mortes e gigantescas irresponsabilidades políticas, dos protestos antirracistas dos quais gostaria de participar com máscara e do danado do banco que cobra uma tarifa muito alta. A última palavra é dela: “Também te amo!” A menina-mulher é de frases completas.

A saudade às vezes deixa um vazio, mas já foi pior. Fiquei meio perdido na primeira semana da quarentena, confuso com os horários e sem saber o que fazer fora do período de trabalho. De repente, a rua virou apenas uma vista da janela, o sol de todos os dias só me banhava na sacada e as caminhadas “viciantes do bem”, sempre ao ar livre, não me tiravam mais do lugar.

Notei alguma preocupação nas falas de alguém especial que, também à distância, se importa comigo, com minha rotina, com minha alimentação e com minha saúde física e mental. A “tal” palavra não foi pronunciada em nenhum momento, mas entendi e não fugi dela. Pensei na depressão que me tomou depois de um luto trágico e inesperado, da ausência de alguém que não posso ver mais.

Veio, então, um mergulho em mim mesmo, aquele cara que só conheci em anos de terapia. E tomei uma “decisão”, se é que isso é possível nessas horas. “Desta vez, não!” Tá bom, não foi bem assim. “Desta vez, não! Porra!” O complemento faz muita diferença. Fiz do lar a minha “rua”, de bermuda, camiseta, meia e tênis. E, como de hábito, coloquei rock nos ouvidos pra acelerar o passo. Tá bom, não foi só isso. Foi rock no volume máximo porque é só assim que funciona. Que o otorrino não saiba disso…

Mas minha rodagem sem sair de casa, agora de quase 700 quilômetros acumulados, ainda era pouco e resolvi me enfiar na cozinha, apesar dos gestos bruscos com panelas e colheres de pau e da impaciência de alguém (eu mesmo) que queria resultados rápidos. A boa notícia é que estou aqui, escrevendo sobre isso. Sinal de que sobrevivi…

Ainda assim, os dias ficam pesados quando bate forte em mim uma soma de indignações com tanto descaso, irresponsabilidade, intolerância, ódio e falta de empatia. Mas alguém especial entra em cena de novo e juntos, mas à distância, começamos a fazer meditação. Se vai dar certo? Ah, a incerteza também pode fazer bem.

Prometi a mim mesmo que não deixaria tudo isso se perder depois que voltarmos ao nosso “normal”. Quero uma convivência harmoniosa entre esses dois “eus”, o rueiro e o caseiro. E muito mais proximidade de pessoas amadas, de uma conversa olho no olho, de um abraço mais longo e apertado.

Não sei quanto tempo essa travessia sem sair do lugar ainda vai durar. Só sei que vou suportar as ausências sem tristeza. Pensava nisso na última caminhada quando um beatle me deu um sinal ao dizer beeem alto nos meus ouvidos: “Boy, you’re gonna carry that weight”. Em livre “tradução”: “Desta vez, não! Porra!” Paulinho de Liverpool sabe das coisas. O peso vem conforme a gente aguenta…

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