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Democracia no grito

Haisem Abaki

01 Abril 2016 | 09h58

Na escolinha de futebol onde joga um moleque que me provoca corujices, vejo dois sujeitos na lanchonete falando do juiz. Não o das quatro linhas, o da corrupção, que também é um esporte nacional.

– O Lula tá com medo do Moro…

– É, mas eu quero ver se o Moro vai pegar gente da oposição também. O Delcídio já entregou o Aécio…

– Tá, tem que pegar todo mundo. Se tem culpa, tem que pegar. Mas o negócio é tirar a Dilma logo…

– Para com isso, meu! Não tem base pra impeachment…

– Já vai começar esse papinho de golpe de novo…

– Não falo mais nada, cara. Olha que eu te bloqueio no Face.

Estavam engravatados e supus que fossem advogados, Mas a discussão foi interrompida pela TV, quando apareceu uma chamada de Paraguai x Brasil pelas Eliminatórias da Copa.

– Vai ter jogo da Seleção?

– Sei lá… Não tô acompanhando…

– Nem eu.

Voltei a ver o treino impressionado com a falta de patriotismo de chuteiras daqueles dois. Como assim? Cadê os 200 milhões de técnicos de futebol? Viraram todos juristas? Que país é esse? Vão deixar o Dunga em paz e pegar no pé da Dilma, do Lula, do Aécio, do Temer, do Cunha e de tantos outros políticos que só querem servir a Nação?

Parece que as torcidas organizadas fanáticas do futebol contaminaram a discussão política com suas barulheiras, seus gritos de guerra e suas visões seletivas de mão na bola (quando é o adversário) e de bola na mão (sempre sem querer se for contra o meu time).

Já que é assim, vão aí algumas sugestões para que as duas facções aprofundem o debate, ultimamente baseado em argumentos sólidos.

– Roubalheiraaaaaa, roubalheiraaaaaa, roubalheiraaaaaa. Levantou roubalheira.

– Uh, peemedebê, uh, peemedebê!

– Leee, le, le, ô, le, le, ô, le, le, ô, le, le, ô, Dilma! (cada um adapta como quiser)

– Au, au, au, o Lula é animal! (também disponível na versão Moro ou qualquer outra de acordo com a preferência do berrador)

– Explode corrupção!/Na maior felicidade!/É lindo o meu partido!/Contagiando e roubando essa cidade!

– Ah, eu sou corrupto! Ah, eu sou corrupto! (ou nas versões “eu sou petista” e “eu sou coxinha”)

– Olê, olá! O delator vem aí e o bicho vai pegar! (mudar o nome a gosto para Lula, Moro, Temer…)

– Eu já falei, vou repetir: é o Lula que manda aqui (também adaptável a outras preferências)

– Eeeeu sou doleeeiro, com muito orguuulhoo, com muito amoooor! (o doleiro também pode ser trocado por petista, militante ou coxinha)

– Não para, não para, não para./Não para, não para, não para./Não para, não para, não para. Vai pra cima Morão (o outro lado pode mudar pra Lulão)

– Dá-lhe Moro, dá-lhe Moro, dá-lhe Moro. (o “herói” pode ser outro de livre escolha do torcedor)

– Aqui tem um bando de louco, louco por ti democracia! (outro grito que dá pra alterar para militante ou coxinha)

Enfim, alternativas berrantes não faltam para este momento de gritaria e intolerância. Os amarelos e os vermelhos já trocam ofensas nas redes antissociais e começam a se pegar nas ruas num ódio fundamentalista simplesmente pelas cores.

Mas a coisa fica ainda mais complicada quando o mau exemplo vem de cima. A inquilina do poder abre as portas para a torcida dela em mais uma jogada do programa Meu Palácio, Minha Vida.

E no parlamento os julgadores se dividem em duas facções, aplaudindo e vaiando de acordo com a conveniência e erguendo seus cartazes como se estivessem numa gincana da quinta série. Desculpa aí pela comparação porque a turma da quinta série é séria.

Vamos tratar a democracia na base dos gritos de guerra com risco de morte ou queremos mudar o jogo? Um bom começo é berrar para os líderes incendiários das torcidas. Bem alto e forte para mandá-los para um determinado lugar, muito apropriado ao linguajar que usam e entendem. Aquele para onde se manda o juiz. O do futebol.