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Deixando a vida rodar

Haisem Abaki

06 Novembro 2015 | 11h15

Dilmadas, cunhadas, luladas, marinzadas, alckminzadas, haddadas, pedaladas, corintianadas… Um simples toque do celular me tirou da roda viva das notícias repetitivas da semana e deixou tudo mais leve. Se bem que os corintianos estão no maior sossego, ao contrário dessas companhias que coloquei aí.

Mas, voltando ao celular… Era uma foto. E foi o suficiente para eu perceber que a vida ensina até quando a gente nem percebe que está aprendendo. O negócio é se ligar e prestar mais atenção no que realmente importa.

As lições já haviam começado alguns dias antes, no fim de semana, quando tive uns bons papos com o autor do retrato. Ele me falou sobre amor, família unida e saudade. Contou que sempre gostou de acordar no domingo de manhã e ver a mãe e o pai preparando o café e conversando na cozinha.

Fez comentários sobre as perdas que temos na vida, Deus, fé e a confiança que tem na irmã. Viu na TV uma reportagem sobre crianças com câncer e concluiu que nossos problemas ficavam bem menores. Aí, quis saber mais sobre o meu trabalho, como e quando comecei e detalhes da minha rotina, sempre atento às explicações. Depois, projetou a própria carreira, demonstrando o gosto por carros, motores e jogos eletrônicos.

Educação e leituras também entraram no papo. Mais adiante, o fotógrafo abordou a minha terapia e as crônicas que escrevo. Mostrei algumas que ele leu pela primeira vez. E outras, que alegou já ter lido, mas mesmo assim resolveu reler. Desta vez em voz alta, sempre com alguma observação ou apenas um sorriso.

Até culinária entrou no repertório do meu interlocutor, interessado em alguns pratos árabes. E, como um assunto puxa o outro, falou da Síria também. Nesse ponto o tema passou a ser viagem. Perguntou sobre lugares que conheço e que quero conhecer. Chegamos a fazer alguns planos em conjunto.

O curioso rapaz ainda tratou das minhas corridas. E falamos sobre cinema e carros. Contou que o preferido dele é uma McLaren. Na minha ignorância, pensei naquele da Fórmula 1. Mas não. Ele foi buscar no celular pra me mostrar. E perguntou qual era o meu. Lotus, respondi. A da Fórmula 1, claro.

Enfim, conversamos muito, tomamos café, almoçamos, caminhamos sob o meu torto guarda-chuva, torcemos juntos no futebol, passeamos, jantamos, rimos um montão e fomos dormir bem tarde porque o papo estava gostoso e não terminava. Descobri alguém com maturidade, bom senso e sonhos.

E me lembrei de todos esses momentos ao abrir a foto que ele me mandou. Era uma bela e iluminada roda gigante instalada no shopping. Ele já tinha me contado que conseguia vê-la de casa e estava impressionado com a montagem do equipamento.

Às vezes esqueço que minha versão melhorada é um garoto de 12 anos, gente boa e que fala “véi” pros amigos, como eu faço. Perguntei se ele queria ir lá, andar na roda gigante. E surgiu o primeiro momento de indecisão, com um “num sei”. Então, apontei para a decoração de Natal e questionei se ele gostaria de ver a chegada do Papai Noel.

– Aí, não, né, pai?

Putz, às vezes me escapa mesmo a lembrança de que ele tem 12 anos…