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De uma vez por todas

Haisem Abaki

25 de fevereiro de 2013 | 14h55

Publicado pela 1ª vez em 18/02/2011
Minhas formas menos arredondadas nos últimos tempos têm me revelado “partes” de mim mesmo que eu não conhecia ou que a memória havia guardado num arquivo secreto sob a proteção de alguma senha inacessível até para uma mente privilegiada como a minha, que é capaz de fazer várias combinações numéricas de um a três.
Comecei a subir numa balança que tenho em casa e observei a gradual redução do centro expandido do umbigo. Tomei todos os cuidados para não exagerar no novo hábito. O autocontrole foi a chave para o sucesso. Deixei claro para a dona balança quem mandava em quem. Comigo não! A danada que não pensasse que faria de mim um escravo. Nada disso… Segurei o ímpeto e só me pesava umas 319 vezes por dia.
Depois, até “reparei” que havia um espelho no quarto e que eu passava na frente do dito cujo sem fixar o olhar. Então, aos poucos, fui me acostumando a contemplar aquele corpitcho de vinte anos atrás que voltei a ter. Mas o “espelho, espelho meu, existe neste mundo algum cara mais enxuto do que eu?” também não me dominou. Não, senhor! Mostrei logo quem era o ser superior e quem era um mero pedaço de vidro. Não deixei o exibido reluzente me atrair. Só parava ali umas 443 vezes por dia.
Numa dessas raríssimas ocasiões, notei um perfil cada vez mais reto, do tipo tábua de passar roupa, mas sem tremedeira nas pernas. E, ainda melhor, sem um ferro quente por cima. Com o equilíbrio de sempre, não fiquei olhando primeiro de um lado e depois do outro indefinidamente. Isso é coisa de quem não tem o que fazer. Só olhei primeiro de um lado e depois do outro, de um lado e do outro, de um lado e do outro, de um lado e do outro, de um lado e do outro, de um lado e do outro… Não mais do que umas 544 vezes.
Outro dia, ainda com o peito desnudo, algo me chamou a atenção no ombro direito. Depois, numa verificação mais atenta, percebi outra saliência igualmente durinha no companheiro da esquerda. Eram dois ossinhos que nunca tinha visto ali. “Emagreci até nos ombros”, imaginei rapidamente. Foi um pensamento-relâmpago mesmo, que só passou pela cabeça umas 234 vezes. Nem me importei com a descoberta, dei de ombros e olhei para o espelho apenas umas 256 vezes. Ou 128 pra cada ombro, pra não ter briga.
Subindo um pouco e não mais descamisado, senti uma coisa estranha no pescoço. Não chegava a ser uma girafa, mas parecia mais esticado. O colarinho também estava esquisito e sambava de um lado para o outro. Tomei coragem e fiz a experiência definitiva. O detestável botão da gravata fechou. E com folga! Fiquei com a impressão de que o gogó havia emagrecido. Será? Pura bobagem e não quis pensar nisso mais do que umas 112 vezes. Dava até pra colocar os dedos que não ficava apertado, mas não fiz o teste compulsivamente. Foram apenas umas 292 vezes.
Como sou um sujeito extremamente controlado, deixei de ficar me admirando, ainda que tão pouco. Eu posso viver bem sem isso. Mas nesses últimos meses a sensação tem sido a de estar diante do espelho em todos os lugares. Até hoje, diariamente, ouço uma sucessão de “nossa, como você emagreceu!”. Perdi a conta na “nãoseiquantésima” vez. Ô gente exagerada! Será que não existe ninguém absolutamente normal como eu?
Já estava me conformando com isso quando, durante uma caminhada na praça, fui chamado por alguém que perguntou se “eu” era “eu”. Respondi que sim e, mesmo sem dizer mais nada, devo ter feito cara de “e aí, quem é você?”. O rapaz se apresentou como um colega que tinha visto pela última vez na sétima série, quando éramos moleques de 13 anos. Quase 34 anos depois, ele soltou um “você não mudou nada, continua magrinho!”.
Fiquei feliz ao ver que os quilos estavam perdidos, mas o mundo ainda não. Finalmente havia encontrado alguém sensato, que não ficava repetindo gestos, falas e caras de espanto. Exatamente como eu. Procurei meu velho amigo nos dias seguintes e espero poder revê-lo em breve. Quero que ele explique melhor a comparação que fez. Coisa pouca… Só umas 974 vezes pra eu entender!

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