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De parar o trânsito

Haisem Abaki

08 Julho 2016 | 11h04

Semáforo aberto para pedestres com exatos 15 segundos para a travessia. A cena se repete diariamente e nunca prestei muita atenção. Fica verde e atravesso. Só notei o tempo por causa de um idoso com bengala. O motorista apressado achou uma eternidade e acelerou como forma de intimidação.

Aos poucos, fui vendo (no gerúndio mesmo), que vou de um lado a outro em sete ou oito segundos. Quase um Bolt do trânsito! A sonoridade do primeiro nome é parecida, apesar de o meu ser com “h” e não com “u”.

O tempo também é curto para mamães com bebês nos carrinhos, fregueses carregando sacolinhas de supermercado e estudantes em bando, sempre animados, distraídos e despreocupados.

Como não me encaixo em nenhuma dessas categorias “humano-semafóricas”, apenas sigo o meu caminho. Tá, de vez em quando faço algum gesto para uns caras que parecem ter um pé de chumbo no acelerador. Fiz isso no dia do velhinho da bengala, que depois me agradeceu, puxou um papo sobre o desrespeito dos mais jovens e falou de um problema na coluna.

A simpática moça do carrinho de bebê também sorriu e demonstrou gratidão depois do meu papel de guarda de trânsito diante de um impaciente motorista de ônibus louco pra sair do ponto. Nem a visão de uma menininha vestida de rosa tirou a pressa do motorizado, sutil como um busão.

Os alunos livres, leves e soltos na adolescência do sinal verde também gostaram de  me ver, com as mãos, pedindo paciência a um “picapeiro” que se julgava o dono do pedaço. Soltaram um sonoro e geral “valeeeeeu”. Pelo menos não me chamaram de tio.

Mas, enfim, chegou o meu dia de pedestre lerdo. Foi quando vi que 15 segundos também podem fazer uma vida inteira passar pela cabeça. Meu momento lesma foi provocado por um sujeitinho com os pés apressados que cruzou o meu caminho.

Eu o conheço muito bem e sei que é atento, cuidadoso e educado. E que aprendeu desde cedo a olhar para os dois lados antes de atravessar, mesmo que o sinal esteja fechado para latarias de quatro pneus conduzidas por humanos de quatro patas, com o perdão dos animais pela comparação.

Nunca fui adepto da superproteção paterna. Ah, só um pouquinho. Também acho chata a repetição exagerada de um monte de orientações e conselhos. Eita, eu confesso, só um tiquinho de nada. E comigo não tem esse negócio de ficar preocupado em excesso querendo saber onde e com quem o filho está. Bom, só uma pequena vigilância, vai.

O fato foi que naquela curta travessia faroleira senti 13 anos se passarem em 15 segundos. Era um rapaz magrelo vindo na minha direção. Um bebê até outro dia. Já parecia um homem! Mas felizmente voltou a ser menino ao me ver. Correu, disse “oi pai” e me deu um abraço e um beijo melado. Melado pelo sorvete comprado na padaria.

Foi a primeira vez que nos encontramos naquela situação, por acaso, na rua. Fiz um gesto de “pé-ra-í” para o motoqueiro afoito entender a cena e sossegar o capacete enquanto seguíamos abraçados para a calçada. É um momento único receber o carinho de um filho assim, de graça, na faixa (de pedestres). Por um mundo menos acelerado e com mais tempo para longos abraços. E em câmera lenta. Segura essa buzina aí, pô!