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De degrau em degrau

Haisem Abaki

16 de outubro de 2015 | 08h49

Foi há 29 anos, num dia de São Cosme e São Damião, 27 de setembro, que conheci meu primeiro “patrão jornalístico”. Eu ainda era estudante no último ano da faculdade e só precisava atravessar a rua pra trabalhar no prédio em frente, o Fórum, como servidor do Judiciário, de segunda a sexta e com um ótimo salário para um cara de 22 anos. Já tinha sido office-boy, auxiliar de contabilidade e, naquela época, era incentivado por promotores e juízes a fazer o curso de Direito. Qualquer sujeito com um mínimo de juízo escolheria uma daquelas carreiras.

Mas a melhor hora do dia era bem cedinho, quando eu ficava na Rádio Diário, parecendo uma coruja. Quieto e observando tudo com os olhos arregalados. Meu professor de Rádio, Nivaldo Marangoni, gerente da emissora, me deixava ir lá pra acompanhar no estúdio o jornal que ia ao ar das 7 às 9 da manhã. E eu fui ficando, ficando, ficando… Até que veio uma proposta de trabalho. A grana era curta, mas podia melhorar um pouco porque o jornal Diário de Mogi, no mesmo edifício, estava precisando de um repórter. Era só passar no teste e ganhar metade do salário que recebia do Estado!

O Darwin Valente, que logo passaria a me chamar carinhosamente de “turco safado”, me mandou pra rua pra fazer uma matéria sobre o dia de Cosme e Damião. Acho que as fontes eram um padre, um pai de santo e o famoso “povo-fala”. Fui, cumpri a pauta, voltei, escrevi, entreguei o texto e ouvi que era pra retornar no dia seguinte, o dos dois santos, um sábado.

Cheguei antes do horário combinado pra falar com o dono do jornal, o seu Tote. Eu já sabia do apelido, mas pra mim ainda era seu Tirreno. Fiquei lá no sofá, na porta da sala dele e nada de ser chamado. Peguei um jornal do dia e comecei a folhear. De repente, dei de cara com uma reportagem sobre Cosme e Damião. Comecei a ler e achei o texto “familiar”.

Foi quando o seu Tote apareceu, me mandou entrar e indicou a cadeira pra eu me acomodar. Depois, quis saber como se pronunciava o meu nome e a origem da minha família. Ele começou a ler o texto publicado e balbuciava coisas que eu não compreendia, enquanto levantava os olhos por cima das lentes dos óculos e me encarava. Soltou apenas um “muito bom” e perguntou se eu queria mesmo ser jornalista, me alertando para as dificuldades da profissão e contando um pouco da história do jornal que ele fundou em 1957. Topei na hora, acho que pra não ter tempo de pensar… Ele apertou minha mão e me levou à Redação, pra me “entregar” ao Darwin.

Foi a primeira cena que veio à memória nessas últimas horas, assim que chegou a notícia da morte do seu Tote. E depois foram passando mais e mais “filmes” dos sete anos em que tive como patrão aquele homem que para mim, no começo, parecia misterioso. Ele era discreto, mas ao mesmo tempo fazia comentários sarcásticos sobre os assuntos do dia a dia. Era um humor refinado e às vezes eu não sabia se estava levando uma bronca ou não.

Uma vez, funcionários de uma grande indústria da cidade foram vítimas de intoxicação alimentar. Fui escalado para percorrer hospitais e a cobertura atrasou o fechamento do jornal, que no dia seguinte trouxe o assunto como principal manchete. De manhã, fui chamado à sala do seu Tote, que estava recebendo um diretor da empresa fornecedora das refeições. A pedido do chefe, fiz a entrevista ali mesmo e ele também participou com algumas perguntas.

Ao se despedir, o entrevistado nos convidou para uma visita e “um almoço” na sede do grupo. “Almoço? Melhor não, obrigado”, respondeu o seu Tote, já despachando o rapaz. “Te livrei dessa, hein?” e me puxou para um café.

Ao me ver, quase sempre ele fazia algum comentário sobre meu trabalho, em tom de incentivo e orientação. Outros assuntos frequentes eram o Palmeiras e as crises no Oriente Médio, com um pessoal que ele chamava de “seus patrícios”.

Mas de tantos momentos nada foi mais marcante do que um na escada da sede do Diário. O jornal ficava no primeiro andar e o estúdio no segundo. Sempre apressado, eu tinha o hábito de subir de dois em dois degraus. Um dia dei de cara com ele ao chegar correndo lá em cima.

– A matéria vai ficar melhor com essa correria toda? Um degrau de cada vez pra não cair.

Fiquei sem jeito e concordei com o chefe. Só que continuei a ser o “saltador” de sempre. Até o dia em que fui flagrado de novo e vi o seu Tote fazer um gesto pausado com as mãos.

– Calma! Um de cada vez.

– Pode deixar. O senhor não vai mais me ver fazendo isso aqui.

– Não é só aqui. É na vida. Um de cada vez. De degrau em degrau.

Ele tinha razão. Aquele conselho me acompanhou em vários momentos da profissão e da vida, com ou sem escada. Hoje sou grato ao seu Tote, o homem que me colocou no primeiro degrau da profissão. O primeiro e o mais importante. Um de cada vez!