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Correr, rezar, amar

Haisem Abaki

12 Junho 2015 | 11h42

Esse título aí de cima, quase roubado de um livro de sucesso que virou um belo filme, pode parecer falta de criatividade. Talvez até seja mesmo, mas quem ler até o fim vai ver que se justifica. Além do mais, minha história também tem uma musa, só que não é a Julia Roberts. Ela vem mais pra frente… O começo é com um sujeito barrigudo, acenando pra mim do outro lado da calçada e atravessando a rua na minha direção.

– “Rapais”, você não é o Haisem? Tá lembrado de mim?

Vi que o cara estava beeeeem diferente, mas o reconheci e fiz um sim com a cabeça. Ele nem me deixou falar.

– Pô, lembra mesmo, do futebol? Tempinho bom… Quantos anos a gente tinha? Catorze, quinze?

Ele mesmo perguntava e respondia e eu só tinha o trabalho de confirmar.

Jogávamos numa escolinha dente de leite, os dois no meio de campo. Jogávamos é pretensão minha. Ele era bom, sabia defender e atacar. Eu só corria e mais nada.

– Cara, lembra daquele dia que a gente descobriu que você era o mais rápido da turma? Caraca! Ficou todo mundo de boca aberta…

A memória foi imediatamente ativada. A comissão técnica decidiu fazer vários testes com a molecada. Um dos desafios era correr 100 metros. Eu era quieto e tinha gente que nem sabia o meu nome, fora os que, lógico, falavam errado ou tiravam um sarro. Fui lá e fiz a minha parte. Vi os professores reunidos em torno do cronômetro e da prancheta, com cara de surpresa. Um deles me pediu pra dar mais um pique. Corri de novo. Nem sei mais o tempo que fiz, mas me disseram que fui o mais rápido nas duas vezes.

– Como é o seu nome, garoto? Em que posição você joga?

Respondi, mas o técnico, pra variar, pronunciou errado. E avisou que com aquela velocidade ia me testar na ponta direita. E assim virei um ponta grooooosso, mas que saía atrás e chegava antes do marcador pra cruzar a bola. Depois, comecei a me interessar mais pelo movimento estudantil e o futebol não perdeu grande coisa.

As lembranças foram interrompidas pelo ex-boleiro e atual barrigudo, vendo que eu estava com roupa de corrida. Ele ficou espantado ao saber que corro de 12 a 14 quilômetros, três vezes por semana.

– Cara, você era rápido pra cacete… Então agora o seu negócio é resistência?

Quando nos despedimos, ele disse que ia “tomar vergonha na cara com essa barriga de cerveja”. Então, iniciei minha corrida. Uma hora e meia refletindo sobre “os meus passos” na vida.

Sempre fui rápido mesmo. Aquele teste de 100 metros foi só mais um item na minha “carreira” de garoto veloz. Na escola, não gostava de perder muito tempo fazendo provas e sempre era um dos primeiros a entregar. Adorava escrever e minhas redações eram no estilo vapt-vupt. Também comia depressa e meu pai vivia me chamando a atenção. E quando pegava um livro terminava logo a leitura, devorando cada página. E depois continuei assim com tudo, inclusive nos relacionamentos. Enfim, sempre fui inconstante e me dedicava a várias coisas ao mesmo tempo, deixando algumas pelo caminho.

Isso começou a mudar quando alguém muito especial entrou na minha vida e me deu um rumo. Passei a fazer planos, a ter mais responsabilidade e a ficar mais “lento”, sem pressa pra terminar tudo de qualquer jeito. E assim fui indo adiante.

E quando a vida decidiu levar meu pai embora me deu aquela vontade de parar com tudo. E quase parei mesmo. Depois comecei a fazer caminhadas pra tentar esquecer. E daí fui para as corridas. Uma tremenda sensação de liberdade de espírito e de pensamento, que literalmente me leva pra frente até hoje.

Correndo com música nos ouvidos voltei a ser gente fina (tô falando da barriga), retomei a conversa com Deus e me reencontrei com meu pai. E com o amor também… Sim, é isso. Quando corro tenho alguém muito especial comigo. Na cabeça, no coração e na alma.

Pra quem leu até aqui, já deu pra entender o título lá de cima? Tá certo, eu gooooosto da Julia Roberts, mas a dona dos meus pensamentos é muito mais pretty woman do que ela… O Lulu Santos me mostrou isso durante uma corrida. “Ela me encontrou, eu tava por aí/Num estado emocional tão ruim/ (…) E ela me faz tão bem, ela me faz tão bem, que eu também quero fazer isso por ela…”. Deixei a timidez comendo poeira e falei isso primeiro com os olhos e depois com a voz. Nooossa! Agora consigo falar até com os pés… Bora correr, rezar e amar cada vez mais e sempre, até quando a vida deixar. Não necessariamente nessa ordem…