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Corridas e falações

Haisem Abaki

20 de julho de 2013 | 14h33

Encontrar por acaso pessoas que a gente não vê há um tempão é sempre um perigo. Aprendi com minhas gafes, bolas fora, e memórias detalhistas a não fazer mais perguntas específicas. Fico só nas genéricas: “E aí?”, “Tudo certo?”, “Como vai a vida?”… Assim, não corro o risco, por exemplo, de ouvir como resposta que a mulher do cara virou ex. É sempre melhor deixar em aberto para o interlocutor “desenvolver o tema”.
Mas me divirto muito quando estou “do outro lado”. Vejo um amigo na rua depois de sete ou oito anos e percebo que ele, à distância, espicha o pescoço, como se não tivesse certeza da identidade daquele rapaz “gente fina” que caminhava na direção dele. Aperto de mão, abraço e três perguntas diretas: “É você mesmo? Emagreceu? O que você fez?”.
Expliquei descrevendo o vício dos últimos quatro anos. Correr, correr, correr, correr… Antes só contava histórias. Agora corro e conto histórias. Quase um Forrest Gump. O cara ouviu e soltou um “aí tem coisa e deve ser mulher…”, mas não perguntou nada diretamente. Nunca dou respostas conclusivas. Gosto de deixar um mistério no ar.
Outro amigo me vê a pé e começa a buzinar. Enxergando muuuuuito beeeeeeem de longe, fico na dúvida: “Eu?”. Era comigo mesmo. Depois do “pra onde você vai?”, vem a oferta de carona, que aceito. No caminho, ele pergunta do meu carro. “Deve estar feliz nos braços de outro alguém”, respondi.
A conversa sobre “a vida” seguiu até o metrô. Contei a versão “inédita” de que troquei as quatro rodas pelos dois pés e me entreguei ao prazer das corridas. Veio o convite para um almoço, qualquer dia, numa churrascaria. Aceitei, mas disse que a comida poderia ser mais leve. Surpreso com tantas mudanças, o sujeito solta: “Virou natureba? Deve ter mulher nova na jogada…”. Desci do carro com cara de paisagem e deixei o mistério sentado no banco do carona.
Correndo na rua, revejo outro amigo. Tiro os fones de ouvido pra conversar um pouco. Ele pergunta onde estou morando, diz que me ouve no rádio e, como prova, repete coisas que eu havia falado no ar naqueles últimos dias.
Diante das perguntas de costume, repeti o mantra “corrida e alimentação saudável”. Aí, o curioso percebe o som da música que embalava minha corrida. Era “Without You”, com o Air Supply. “Huuuum, fazendo corridinha, comendo saladinha e ouvindo musiquinha romântica… Tem mulher na jogada…”. Só que esse não resistiu ao meu silêncio reticente e apontou uma segunda alternativa: “Ou então saiu do armário…”. Foi mais um que me viu ir embora e ficou com um mistério na cabeça.
Correndo, comecei a pensar qual seria a razão de as pessoas sempre terem esses palpites. Então, um cara não pode correr pelas próprias pernas e se alimentar direito pela própria boca, sozinho? Só se faz isso por causa de mulher? Tá bom, confesso que tenho um “incentivo feminino”, sim. Mas o suor é meu…
E não conto nada pra ninguém porque sempre, desde criança, tive um “prazer mórbido” de deixar as pessoas na desconfiança. Tem gente que até hoje não sabe se sou cristão ou muçulmano. Adoro ver um ponto de interrogação nas testas alheias.
Então, reforcei o “suprimento de ar”, apertei o passo e aumentei o volume pra ouvir mais músicas do Graham Russell e do Russell Hitchcock. Muito Air Supply. Bem anos oitenta mesmo. Só nós três sabemos de tudo. Se bem que agora, acho que o Obama, o rei da bisbilhotice, também sabe…

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