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Copas, gafes e chutes para o mato

Haisem Abaki

24 de junho de 2014 | 18h19

Era uma manhã de domingo, 07 de junho de 1998. A Copa da França começaria na semana seguinte e não se falava em outra coisa. Na Rádio CBN, um sujeitinho com 12 anos de experiência na reportagem começava a ser testado como apresentador.
No gol da Seleção Brasileira, um ícone testado e aprovado começava a ser contestado. Havia sido o herói do tetra quatro anos antes, mas alguns diziam que já tinha passado da idade pra continuar no time.
Na produção do programa, um promissor talento começava a carreira e propôs a pauta: ouvir a opinião de ex-goleiros sobre o tema. Surgiram nomes como Gilmar dos Santos Neves, Émerson Leão, Waldir Peres. O jovem produtor fez vários contatos e veio o aviso. Waldir Peres na linha!
O apresentador abriu a entrevista fazendo um histórico da carreira do ex-goleiro do São Paulo e da Seleção de 1982. Depois da efusiva introdução, deu um “bom dia”. A resposta foi seca. Simplesmente outro “bom dia”. Nada de “é um prazer falar com você e seus ouvintes”.
O rapaz do microfone achou aquela voz esquisita, mas seguiu em frente e emendou um “tudo bem?”, obtendo um ainda mais seco “tudo bom”. Ele sabia que o ex-jogador estava numa nova função no futebol e mandou ver um “você tá como técnico agora, né?”. E o Waldir, sequíssimo, disse “não” antes de soltar uma looooonga frase. “Escuta, é uma brincadeira?”. Em seguida, botou o restinho de dúvida que havia pra escanteio. “Eu sou Waldir Peres, mas eu não sou jogador de futebol e nunca fui técnico. Por isso que eu achei que fosse uma brincadeira, por causa do meu nome”. Ele pensou que era um amigo passando um trote.
O operador de áudio caiu da cadeira de tanto rir. O jovem produtor levou as mãos à cabeça e o quase “ex-futuro” apresentador tentou se controlar pra não ficar nem na gargalhada, nem no desespero.
– Tá certo… O Waldir… E como é… O fato de ter um nome igual ao do Waldir Peres, como é que acaba influenciando na sua vida?
– É… Sai muita brincadeira, né? Principalmente quando o Brasil perdeu a Copa em 82…
– Chamaram você de frangueiro?
– Nossa… Foi o que mais falaram.
Aí o apresentador, jornalisticamente, fez referência ao gol que o pobre Waldir, o original, havia tomado na estreia contra a União Soviética e continuou com a “entrevista”.
– Bom… E você tá acreditando na Seleção?
– Olha, rapaz… Tem que acreditar, mas tá devagar…
– Você acha que… Qual é o ponto fraco?
– O ponto fraco? É… Eu não boto fé no Taffarel…
A essa altura, “entrevistador” e “entrevistado” já achavam graça da situação e o “falso” Waldir estava mais à vontade pra falar.
– É porque ele não inspira confiança em mais ninguém…
A “entrevista” durou cerca de três minutos e o apresentador se despediu agradecendo pela opinião. Depois, explicou o engano aos ouvintes e ficou esperando pela bronca. Mas ele e o produtor só tiveram que ouvir algumas orientações do professor Heródoto Barbeiro e do chefe Zallo Comucci para que houvesse mais cuidado, para que aquilo não se repetisse…
O apresentador, obviamente, todo mundo já sabe quem é. O nome do produtor eu não vou revelar porque sei que ainda se culpa como se tivesse levado um frango. Já disse a ele para não sofrer mais com isso e até demos umas risadas. Trabalhamos juntos em outra casa e sei que é um cara de bem e ótimo profissional.
A lembrança veio (preciso dizer?) depois da “entrevista” do colega Mário Sérgio Conti com o sósia de Felipão. Não vou usar o chicote aqui porque “o mundo” já explorou o assunto e o próprio autor assumiu o engano. Minha única dúvida é se nós, jornalistas, todos nós, estamos livres de erros pelo simples fato de termos “experiência acumulada”. Esta ainda é uma profissão que se exerce em equipe, com acertos, falhas, bolas fora, furadas, gols contra… O time precisa de craques, mas em muitas vezes a solução está no “jogador” que chuta a bola para o mato.
E nas voltas que o mundo dá, aquela pauta de 1998 ainda pode servir agora. Talvez o grande Waldir Peres (o verdadeiro) seja uma boa fonte para analisar a atuação do nosso Júlio César debaixo das traves. Com os devidos cuidados, é claro.
Quanto ao Felipão, que além de sósia tem muitos imitadores (aquela bufada é clássica), há um método que pode ajudar na identificação para quem não está entre os milhões que se permitem apaixonar pelo planeta futebol. O Felipão que faz “buf” de verdade está sempre com o Murtosa ao lado. Se alguém ainda não se ligou no mundo dos 22 caras correndo atrás de uma bola, mais uma dica… Sabe o baixinho bigodudo do comercial da Kaiser? Então… Falando nisso, alguém já ouviu a voz do Murtosa? Por telefone, confesso, eu jamais saberia. Chute para o mato, pô!

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