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Consumidor, um bicho que pasta!

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 15h15

Publicado pela 1ª vez em 29/11/2008
Na padaria, pedi 250 gramas de blanquet de peru (chique, não?). Em poucos minutos, me assustei com a coincidência. A balconista colocou aquele monte de fatias na balança digital: 250 gramas exatamente, nem mais, nem menos. Até a moça ficou surpresa:
– Isso nunca me aconteceu antes!
Tentei tranquilizá-la:
– Comigo também não!
Aliás, coincidência ou não, comigo sempre pesam para mais:
– Duzentos e setenta e dois, está bom?
Geralmente, quando passa um pouco, acabo levando o excesso. Mas tem gente que abusa. Outro dia, no supermercado, pedi “um quilo de patinho moído na hora, por favor”. Apesar da educação e da mansidão do tom de voz, parecia que eu tinha dirigido uma grande ofensa ao açougueiro, que apontou o dedo para uma imensa bandeja de carne já moída, quase vazia:
– Tem essa aqui, ó…
Detesto arrumar confusão, ainda mais com um sujeito que tem um facão na mão. Só que desta vez não dei uma de coxão mole.
– Olha amigo, uma vez peguei uma carne que já estava moída aí e a minha mulher teve que jogar fora. Vê se me ajuda a não arrumar confusão em casa…
O rapaz fez que ia rir, mas emitiu um som quase bovino:
– Hmmmmmmmmmmm!
Imediatamente, lá foi ele pegar o temível facão para cortar a carne, não sem antes avisar para todo mundo ouvir:
– Vai demorar!
Da dianteira até a traseira da fila, os olhares dirigidos a mim não tinham expressão de solidariedade. Pensei com minhas gordurinhas:
– Consumidor é um bicho conformado mesmo. Vai pro abatedouro sem reclamar!
Felizmente, logo apareceu um segundo homem com facão para fazer andar a boiada, digo, a clientela, enquanto o outro cortava o meu pedido nu – ma – ve – lo – ci – daaaaaaa – de!
Uma senhora que estava logo atrás pediu um quilo de miolo de acém cortado em cubinhos e me olhava como se eu fosse um exagerado ao cubo. Outra pediu um quilo de alcatra cortada para bife e me fritou com o olhar.
Minha salvação estava a caminho. Era um homem, o quarto da fila. Infinitamente mais independente do que eu, ele não precisava de lista de compras e tomava decisões na hora. De cara, pediu um quilo de filé mignon. Depois, quis ver dois pedaços de paleta. Comparou, não gostou de nenhum e apontou para um terceiro. Também pediu alcatra, coxão duro, picanha e cupim.
Do segundo para o terceiro pedido, já percebendo que seria difícil abater aquele freguês rapidamente, o balconista perguntou:
– Mais alguma coisa?
Do terceiro para o quarto:
– Algo mais?
Do quarto para o quinto:
– E então, senhor?
Do quinto para o sexto pedido, o balconista nem perguntou mais. Fez um gesto erguendo a cabeça como se fosse um “e aí?”. Ninguém mais na fila se importava comigo quando meu quilo de patinho moído na hora chegou e foi para a balança.
– Um trezentos e oitenta está bom ou quer que tire?
– Pode tirar…
O rapaz tascou a mão na carne duas vezes. Quando a balança marcou 1.098 kg, disse a ele que estava bom. Nem perguntou se eu queria mais alguma coisa, mas era só aquilo mesmo. Antes de sair, ainda ouvi o homem dos pedidos intermináveis aproveitando a deixa:
– Ah, me dá um quilo de patinho moído na hora também.
Olhei para trás e percebi um mugido coletivo dos dois lados do balcão:
– Hmmmmmmmmmmm!
Sem olhar para a frente, quase trombei com um cliente, mas dei o drible da vaca a tempo! Acho que o freguês tem sempre razão, mas alguns têm arrobas de razão. Chato? Quem, eu?
– Hmmmmmmmmmmm!
…….
Tenho recebido muitas mensagens de ouvintes nos últimos dias, a maioria de carinho. Algumas são críticas, que às vezes têm se transformado em manifestações de apoio após as minhas respostas. Acho que é minha obrigação responder a todos com respeito. Fui educado assim, vivo assim e procuro fazer rádio sem me desviar dessas convicções. Agora estou em dois horários na Rádio Bandeirantes: das 7 às 8, no Jornal Primeira Hora, e das 10 às 11h30, no Manhã Bandeirantes. Agradeço a todos pela força.

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