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Conseguiremos conquistar com braço forte

Haisem Abaki

17 de junho de 2021 | 17h13

Acordei hoje com uma sensação estranha: boa e ruim, alegre e triste, de euforia e desalento. Mas eu mesmo fiz o diagnóstico e vou me dar a solução porque me conheço muito bem. Posso fazer isso tranquilamente. Tem um cara aí que fica receitando um monte de “inas” goela abaixo de emas e não emas e não acontece nada…

O Doutor Eu nem precisou pensar muito pra me dizer o que era: TPV – Tensão Pré-Vacina. Mas no meu caso, com o perdão do genuíno falso moralismo da tradicional família brasileira, também ficaria correto se fosse tirado o “n” da primeira palavra. Chegou o meu dia. Muito bom por a fila andar e muito ruim porque poderia ter ido mais rápido. Muito alegre pela oportunidade de viver e poder trabalhar em casa e muito triste pelas quase quinhentas mil vidas que não tiveram essa chance e por tantos milhões de seres humanos que só têm a “escolha” de sair e se expor ao vírus. Muita euforia pelo que virá depois, seja o que for, e muito desalento por ver que talvez a gente não faça nada contra as desigualdades “reveladas” pela pandemia.

No que vai dar essa mistureba toda eu ainda não sei.  Estou escrevendo este texto que alguns chamam de crônica antes da hora da vacina. Nunca sei direito como uma história que conto vai terminar. Ainda mais essa. Então, desta vez será em duas partes: antes e depois da agulha no braço.

Acordei no horário de sempre para trabalhar a uma esticada de braço do travesseiro. Liguei o equipamento da rádio e o computador pra dar uma olhada no que aconteceu enquanto eu dormia. Deixei os companheiros no quarto e fui preparar o café da madrugada. Tá bem, teve um xixi antes. E uma água no rosto.

Na volta do café, como faço todos os dias, abri a janela pra ver o mundo lá fora. Mas hoje foi diferente. Voltei à janela várias vezes nos intervalos do jornal. Depois que acabou também, enquanto já tomava o café da manhã. E mais vezes durante a preparação para o jornal da hora do almoço. Queria poder ver o que acontecia atrás dos prédios do outro lado da praça. É que bem ali, a menos de 10 minutos de casa, fica o posto de vacinação. Um lugar tão próximo, mas que não vai me permitir ir a pé, só de carro, no tal do drive-thru que não é de sanduíche.

Não tenho muitas memórias das vacinas da infância. Na verdade só tenho duas. Uma era pelo sistema “abre a boquinha neném”. Meu pai me levou com meu irmão ao posto. Fizemos cara feia pelo gosto de sabão. Meu irmão já está no céu. E eu estou aqui, a poucas horas e metros de tentar adiar minha ida pra lá por mais um tempo. A outra lembrança é da minha fuga da vacina da meningite, naquela epidemia que um governo ditatorial tentou esconder nos anos 70. As ditaduras um dia acabam, até as disfarçadas. Voltemos ao século passado: fiquei com medo daquele “revolvinho” e saí correndo, mas fui capturado no muro da escola e devidamente vacinado.

Minhas memórias vacinais mais marcantes são dos meus filhos. Acho que estive presente em quase todas as vacinações dela e dele, algumas com choro dos dois. E com algum aperto no coração de pai e às vezes com um “suor” nos meus olhos, mas sabendo que estava fazendo a coisa certa que minha mãe e meu pai sempre fizeram por mim. A mais recente, de novo com olhos “suados”, foi a vacinação da minha mãe.

Fui interrompido nas lembranças por alguém que me ama e me enviou uma mensagem de “se cuida” e de “não vai demorar”. Depois, minha filha me mandou fotos da Meg no colo do meu filho, com aqueles lindos olhares se cruzando de maneira tão “encãotadora”. O pensamento fez uma pausa para eu apresentar o jornal da hora do almoço, mas assim que acabou o amigo Nelson Wolter me mandou uma mensagem desejando “boa vacina” e perguntando qual seria “o sabor”.

Achei que era um bom momento pra agradecer pela atenção de tanta gente que gosta de mim. E também para parar de escrever e ir ao macarrão que fiz para o almoço. Resolvi só voltar às palavras depois da vacinação, marcada para o meio da tarde.

Cheguei da vacinação agora. O amigo Cristiano me levou e ainda deu uma de “fotógrafo oficial”. Eram sete carros à nossa frente. A Leila veio falar comigo, conferiu os documentos e me orientou sobre os possíveis efeitos adversos e o que eu deveria fazer. Nada que justificasse as mentiras e indecências dos terroristas da vacina, aqueles que se dizem muito machões e chamam de “maricas” quem cuida de si e dos outros.

A fila andou e a gentil Rayane veio com a seringa, a agulha e o líquido, tudo fruto do trabalho e da dedicação de muita gente. Quase escrevi Rayanne agora, mas consultei a carteirinha de vacinação e vi que só era uma dose de “n”. Ela também foi atenciosa e me explicou o que fazer em caso de algum desconforto. Sim, tive “suor” nos olhos a cada andada da fila e mais ainda quando dei o braço para a vida. Mas foi diferente. Desta vez foi por mim mesmo e não pelas pessoas que amo.

Voltei pra casa pensando que setembro bem que poderia chegar logo. Não pela minha segunda dose, mas pela primeira dos meus filhos. E com uma imensa torcida para que a geração deles finalmente tenha o penhor desta e de tantas outras necessárias igualdades que precisam ser conquistadas com braço forte. Contra este vírus e contra outros piores, que espalham ódio e mentiras. Os jacarés começam a abrir suas bocas para quem, diante de tanto sofrimento humano, é incapaz de derramar lágrimas, ainda que sejam de crocodilo.

Encerro por aqui com um renovado derramamento de “suor” pelos olhos. Leila e Rayane não falaram desse tipo de reação. Nem era preciso. Sei que nasci com isso e assim será para sempre. Já percebi esse “legado” nos olhos dos meus filhos. Quando a gente puder se encontrar, se beijar e se abraçar o “suor” ocular será em doses sêxtuplas. Logo voltaremos a dividir esses momentos e tudo, tudo, tudo. Menos chocolate e bala de goma. Se houver vacina pra isso eu fujo…

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