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Comentaristas de morte

Haisem Abaki

03 Fevereiro 2017 | 09h39

Um menino morto num deslizamento de terra e um acidente ferroviário em Itaquera foram meus primeiros contatos “profissionais” com a morte. Logo de cara, há 30 anos, percebi que esta seria uma dificuldade pelo resto da vida. Nunca consegui ser um repórter que vai a um velório como um simples dever do ofício que precisa ser cumprido de forma técnica, sem maiores envolvimentos humanos e emocionais.

E foram muitos nessas três décadas. Da comoção com a morte de Ayrton Senna ao amplo apoio popular ao abate a tiros de dois sequestradores que mantinham um bebê refém. De famosos muito admirados a desconhecidos que só chamaram a atenção pelo jeito que encontraram a morte.

Cobri velórios de políticos, artistas, escritores, alguns dos 111 do Carandiru, cidadãos assaltados, pessoas carbonizadas em incêndios em favelas, vítimas do desabamento de um shopping, alvos de um atirador em uma sessão de cinema, policiais mortos por bandidos, bandidos mortos por policiais, gente que só estava no lugar errado e na hora errada…

Enfim, teve de tudo. De morte matada a morte morrida. E estive diante de outras tantas mortes dos mais variados tipos. Inesperadas, previsíveis, trágicas e até comemoradas por uma senhora contraditória e de reações extremadas chamada Opinião Pública.

Mas todas tinham um ponto em comum. Qualquer um que fosse o indivíduo esticado no caixão, do mal ou do bem, sempre havia alguém sofrendo. E sofrendo muito. Dos fãs do grande ídolo das pistas à mãe de algum rapaz que entrou no crime e ali, deitado, traz alívio para a sociedade. Como observador, aprendi a respeitar o luto. Fosse de quem fosse.

E acabei, sim, desenvolvendo uma técnica para lidar com essas situações. Nos casos mais delicados, sempre procurava me aproximar primeiro de algum amigo ou parente mais distante da vítima para depois, com calma, tentar abordar pessoas mais próximas, como mães, pais e irmãos. Às vezes dava certo e eu me sentia menos culpado por ser protagonista de cenas de jornalismo explícito.

Naqueles tempos de reportagem, eu só não imaginava que um dia haveria algo pior do que o cheiro da morte. Virei um jornalista que em certos momentos desliga o rádio e a televisão. E, principalmente, que se desconecta da gritaria histérica das redes “antissociais” e dos comentários raivosos de internautas. Fiz isso nas últimas 24 horas para preservar minha saúde mental, ficando longe do ódio disseminado pela suposta inteligência de gente “esclarecida” com suas “teses” de santificação e de demonização mortuária.

Mas sempre sobra alguma bala perdida no insano tiroteio verbal, irracional e imoral. E com o gatilho puxado ao mesmo tempo por festeiros de funeral e por berradores contra e a favor em porta de hospital, iguais na intolerância que decapita consciências que jamais perdem tempo ficando pesadas.

Não adiantou passar a vida fugindo de pautas em velórios. O cheiro mórbido da nossa existência fúnebre está no ar dia após dia. Nossa espécie tão avançada está em adiantado estado de decomposição. Viramos comentaristas de morte. Brincando de ser Deus no Juízo Final. Isto, sim, é morte cerebral. Nada a celebrar.