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Começando por baixo

Haisem Abaki

26 Junho 2015 | 11h47

O celulinha toca. Do outro lado uma amiga, com uma pergunta-cobrança.

– Era você na Zé Paulino, né? Não me viu, não?

Primeiro, fiquei surpreso por ter sido descoberto na minha secreta incursão pelo mundo fashion do Bom Retiro. Depois, soube que foi dela a buzinada que ouvi. Na hora pensei que era alguém bravo por eu ter atravessado a rua no meio dos carros, com o trânsito quase parado.

A bronca se transformou em brincadeira e gozação quando contei o que fui fazer lá. Mas você que está lendo vai esperar um pouco mais pra saber.

– Você, sozinho pelo Bom Retiro, sem uma mulher por perto? Que progresso!

Minha fama de mimado alcançou proporções de vendas no atacado… O curioso é que já havia pensado nisso nas andanças pela José Paulino e adjacências enquanto procurava minhas novas… Ah, verdade, ainda não tá na hora de falar.

O fato é que a vida toda tive alguma assessoria feminina pra tudo e quase não precisei me preocupar com certos assuntos porque sempre havia alguém pra me socorrer. Mas nem por isso virei folgado ou abusado. Não. Não mesmo. Tá, às vezes eu… Só que nunca foi por mal. Um amigo diz que faço tudo de caso pensado, pra ser o protegidinho daquele natural instinto feminino. Nããããão!

Prova disso é que estou aprendendo coisas novas nesses últimos tempos em que o vento deu uma mudada de direção. Já sei fazer arroz, filé de frango, purê de batata, macarrão alho e óleo ou bolonhesa… E um feijãozinho, mas ainda com receita na mão ou alguém soprando. Até tabule, apesar da falta de delicadeza pra deixar a salsinha bem picadinha.

Também melhorei muito no quesito “odeio comprar produtos de limpeza”. Dei um jeito de me organizar anotando cores: embalagem azul com tampa vermelha, verde com branca, branca com vermelha e por aí vai. Só não me perguntem pra que serve o conteúdo, tá?

Mas faltava o supremo teste de entrar numa loja e comprar roupas sem uma última palavra feminina pra eu sempre concordar. Perdi um blazer, uma calça jeans e duas camisas, que rasgaram de tanto eu usar e abusar. E o jeans foi bem ali, num local estratégico. Que saco!

Resolvi começar por baixo pra depois tentar outras conquistas nesse complicado mundo de tecidos, modelos e cores. Alguém especial que ainda se preocupa comigo apesar das besteiras que faço já vinha me cobrando isso e pedindo pra eu comprar peças mais modernas, mas eu sempre adiava.

E lá fui eu pro Bom Retiro à procura de um bom abrigo para… Putz, e não é que o mundo das cuecas mudou depois do passarinho da Zorba? E quem disse que não sou moderninho? Sou, sim. Desde… Que dia é hoje? Sexta? Sempre fui moderninho, desde terça.

Entrei numa loja e logo simpatizei com uma balconista, que me chamou de “moço”. Não, não foi por isso. Quando ela perguntou o que eu desejava fui direto ao ponto, sem enrolação, demonstrando firmeza e decisão.

– Quero ver cuecas boxer, por favor.

Fui tão incisivo que a pronúncia saiu “boxerrrrr”.

– Você tem alguma preferência? Algodão, microfibra, modal…

Caramba! Tentei ganhar tempo perguntando qual era a diferença. E ela chamou um sujeito que parecia querer me explicar toda a anatomia do bicho que ia ficar na gaiola. O rapaz tomou a frente da venda e a garota ficou de coadjuvante. Comprei oito, misturando as três alternativas. Atitude de um cara moderno mesmo, que lança tendências.

E fui beeeeem variado nas cores. Uma preta, outra preta, mais uma preta, uma preta. E também uma chumbo, uma cinza e uma branca. Cores ousadíssimas. Tá bom, sei que já perceberam que falta uma. É que havia uma promoção. Levando a oitava peça o desconto seria maior.

O rapaz já começava a me mostrar cuecas de times. Pé raí, pô! Nem do Palmeiras eu quis. Aí não… Foi quando a mocinha reassumiu a venda.

– Olha essa modal. Fica bem bonita… Ai, desculpa moço… Não queria te deixar sem graça.

E uma colega dela terminou o serviço de me encabular.

– Ele é tímido, mas fica bem mesmo.

Acho que as duas estavam a fim de vender uma cueca amarela. Levei, né? Mas por vontade exclusivamente minha, sem influências.

Já de cueca nova (era uma dos quatro tons de preto), conheci novos colegas de trabalho e recebi alguns elogios. Assuntos puramente profissionais, que fique claro… Aí, alguém que admiro muuuuuito percebeu minha reação.

– Você baixa os olhos quando falam bem de você…

Já tinha ouvido esse comentário de outra pessoa beeeeem especial também, que disse pra eu me valorizar mais. Pronto, entendi e resolvi mudar a situação. Voltei ao Bom Retiro pra comprar duas camisas. Experimentei quatro, de novo com uma vendedora atenciosa.

– Olha, você fica muito bem de preto.

Sei lá se baixei os olhos ou não… Agora procuro um jeans preto. Semana que vem pretendo ir a uma loja de vendedoras simpáticas. Sozinho, totalmente livre, com minhas próprias preferências. Não é qualquer mulher que me convence. Sou um cara beeeeem difícil!

Ainda estava com as sacolas da segunda compra, curtindo a recém-conquistada independência boxer modal, quando o Leoni, no fone de ouvido, confirmou o meu grito de liberdade.

(…) Certas mulheres como você/Me levam sempre onde querem/Garotos não resistem/Aos seus mistérios/Garotos nunca dizem não…

Tá, é amarela. Mas é nova! Estreando em breve…