As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Com todas as letras

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 15h02

Publicado pela 1ª vez em 27/09/2008
Num sábado frio e chuvoso, a mocinha lá de casa pediu para visitar a vovó. O mocinho também quis ir para o mesmo prédio, mas em outro endereço, para brincar com um amiguinho. Ele ainda não tem a noção exata do tempo e fez birra ao saber que depois ficaria com a vovó porque o papai e a mamãe queriam sair um pouco. Disse com todas as letras:
– Eu quero ficar na casa do João!
Explicamos que ele não poderia ficar o tempo todo com o amigo, mas o mocinho não entendeu nenhuma letra do que dissemos.
Enquanto não chegava a hora, esperamos em casa. Na TV, um filme me chamou a atenção, apesar do sono. Era a história de uma menina que não era boa aluna, mas se dava bem na soletração e ganhou vários torneios nos Estados Unidos.
Fiquei interessado porque tinha essa mania na infância também. Adorava procurar palavras no dicicionário só para saber como escrever, entender o significado e soletrar cada uma delas. Modéstia à parte, tirava boas notas em Português.
Minha paixão pelas letras logo me deu um problema. Tive uma professora que se chamava Assumpta. Gostava muito dela, mas tinha dificuldade de entender porque não deveria dizer o “p” quando ela corrigia a minha pronúncia.
Outra grande “dúvida existencial” surgiu quando descobri que no passado farmácia se escrevia com “ph”. Aos poucos, fui escorregando e me levantando depois de cair em algumas armadilhas da nossa língua, como a diferenciação de palavras com “s”, “ss”, “sc”, “c” e “ç”. Isso sem falar no “z” que às vezes aparecia disfarçado de “s”.
Um dia, a professora explicou que “conserto” com “s” era tarefa do sapateiro e que “concerto” com “c” era trabalho do maestro. Ela ficou sem palavras quando fiz uma pergunta inesperada:
– E se o sapateiro também for maestro?
Pensando bem, agora tenho de novo a lembrança. Ela soltou uma sonora gargalhada, mas não devo ter registrado na memória porque não sabia se o som era de “r” ou de “h”.
Nessa mesma época, descobri sutilezas no meu próprio nome que me acompanhariam para o resto da vida. Até hoje, sou obrigado a explicar que ele começa com “h” (e não com “r”), tem apenas um “s” (e não “ss”) e termina com “m” (e não com “n”).
Ainda na condição de garoto birrento, já sentia alguma segurança nesse caminho cheio de cascas de banana que é o aprendizado da nossa bela língua, mas comecei a levar tombos bilíngues. Foi quando minha mãe me ensinou que em árabe existem três letras com som de “r”. Dependendo da pronúncia, em vez de me dirigir ao meu “irmão”, poderia estar a chamá-lo de “cobra”. Fiquei ainda mais enrolado e percebi que precisaria estar sempre atento para escapar do bote das letras que se arrastam em várias línguas mundo afora. Aprendi com meu pai que as palavras podem ser um veneno, mas também são o antídoto para a salvação. Não sou perfeito, mas procuro tratá-las com carinho.
Acordei das lembranças quase no fim do filme. A menina negra que ia mal na escola já estava na final de um torneio nacional de soletração e o principal adversário era um garoto filho de chineses. Os outros estudantes foram sendo eliminados pouco a pouco. Quando só sobraram os dois no confronto… Não, não vou dizer mais nenhuma palavra sobre o desfecho. Não tem graça ser uma pessoa que grassa finais de filmes por aí. Graça e grassa? Peço desculpas, é o hábito. Digo apenas o título: “Prova de Fogo”.
A outra história termina com aquele mocinho birrento que não sei a quem puxou voltando para casa, acompanhado da avó e da irmã. Finalmente, ele aceitou que a mamãe e o papai saíssem um pouco, mas deixou bem claro, com todas as letras:
– Eu não vou ficar com a vovó. É a vovó que vai ficar aqui com a gente!

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: