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Coisas que ando ouvindo

Haisem Abaki

25 de fevereiro de 2013 | 14h52

Publicado pela 1ª vez em 23/01/2011
Minhas caminhadas diárias, apesar do esforço físico, têm me proporcionado momentos de prazer, descontração, leveza e relaxamento. Uma terapia mesmo, com uma pequena dose de bisbilhotice, mas sem querer. Eu tento ficar alheio, só que meus ouvidos acabam captando alguns trechos de diálogos.
Ando diariamente numa praça em frente ao meu prédio, com uma pista de 600 metros de extensão. A demarcação do trajeto foi pintada no sentido anti-horário, que é o que eu sigo. Talvez esteja aí a explicação para eu me sentir mais jovem, caminhando contra o relógio, atrasando os efeitos do tempo.
A maioria dos caminhantes do lugar segue esse percurso, mas alguns preferem andar no sentido horário mesmo. Assim, acabo ouvindo algumas conversas nas emocionantes ultrapassagens que realizo e outras que chegam “na contramão”, de pessoas que vejo de frente.
Percebi que os papos mais animados e picantes envolvem mulheres que andam em duplas ou em trios. Não sou de ficar observando os outros ostensivamente, a não ser os cachorrinhos que levam as donas pra passear. O quê? Tem cachorro que leva “o dono” pra andar também? Nunca vi, mas vou prestar mais atenção para passar bem longe desses animais ferozes.
Voltando às conversas femininas, houve um dia em que elas me chamaram mais a atenção. Deve ter ocorrido alguma conjunção planetária porque estavam todas atacadas e os alvos eram os mesmos. Fiz um levantamento “científico” e constatei que naquele dia, em 50% dos casos, elas falavam de homens com problemas. Nos outros 50%, a temática envolvia problemas com homens. Não havia margem de erro: os caras eram sempre os errados.
Não quero descrever pessoas para não gerar constrangimentos. Vou me limitar aos trechos que consegui ouvir. E é melhor ir com calma para não sofrer represálias. Afinal, é muito fácil me reconhecer naquele batalhão de andantes. Sou um de short, tênis, meias brancas arriadas e uma nova camiseta velha e surrada a cada dia. Então, não posso correr riscos.
Num dos papos, duas amigas falavam sobre um sujeito. No momento em que fui ultrapassá-las, uma delas disse que o cara “não larga da barra da saia da mamãe”. Só reencontrei as moças uns 50 minutos depois, já no alongamento. A conversa não tinha mudado e o bobão continuava do mesmo jeito, fazendo gu-gu-dá-dá!
Mais à frente, três garotas falavam de um rapaz que, pelo que entendi, era um “galinha”. O “cretino” (definição de uma delas) tinha dado em cima da melhor amiga da menina e “depois fez cara de santinho”. Avistei o trio de novo nos aparelhos de ginástica da praça. E o infeliz ainda era um cretino e não parava de fazer cara de santinho. Eu puxando ferro e ele levando.
Cruzei com duas andadoras e faladoras que vinham no sentido contrário. Não contei direito, mas acho que nos vimos umas oito vezes. Conversavam sobre um danado que vivia sumido, aparecia de vez em quando para “ir pra cama” (palavras de uma delas) e não queria saber de compromisso. O fôlego do cara deve ser impressionante, porque em quase todos os momentos que dei de frente com as moças o espertinho insaciável estava lá, só a fim de “ir pra cama”.
Havia também uma solitária, coitada, mas com um celular salvador e uma amiga do outro lado da linha. O tema era “um desgraçado que só dava desculpas esfarrapadas” e que por isso acabou levando “um pé na bunda”. Esta última palavra saiu meio mascada quando a garota percebeu a minha presença. Fingi que não tinha ouvido nadica de nádegas e acelerei o passo para afastar meu traseiro de qualquer perigo. Vai que… Depois de algumas voltas na praça, a bateria do aparelho da chutadora já estava no fim, mas o bumbum do sujeito ainda era um alvo preferencial. Antes o dele do que o meu…
Em todos esses momentos absolutamente casuais eu estava sozinho. De vez em quando caminho com um amigo e espero que ninguém fique ouvindo as nossas conversas, mas se isso acontecer não tem problema. Quase sempre falamos de trabalho, futebol, culinária, roupas da moda, cabelos, tratamentos de pele, maquiagem… Margem de erro? Apenas de 100%!
Mas não tenho nada a esconder e sempre procuro ver o lado bom das coisas. Acho que devo me orgulhar de fazer parte da espécie masculina. Sim, é mais uma comprovação “científica”. Nós podemos ajudar na boa forma feminina. Falar mal de homem durante a caminhada faz emagrecer! Não que eu tenha reparado…

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