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Coisas espumando na cabeça

Haisem Abaki

25 de fevereiro de 2013 | 15h03

Publicado pela 1ª vez em 10/07/2012
Meus cabelos mudaram bastante nos últimos quarenta e muitos anos. No começo, eram encaracolados e compridos. Tchu-tchu-qui-nho da mamãe de primeira viagem! Depois, já com o sorriso banguela, passei pelo corte batido, cercado por um par de orelhas por todos os lados. Quando finalmente pude escolher, decidi cobri-las.
Fui cabeludo, barbudo e cabeludo, topetudo com gel, topetudo sem gel, jogado para o lado, para trás, partido ao meio, adepto das costeletas, ao sabor do vento e tantos outros modelos dos quais a cabeça, hoje menos recoberta, já não tem mais lembrança.
Mas uma coisa nunca mudou ao longo de todas essas fases. Sempre fui determinado na escolha do xampu. Determinavam e eu usava. Foi assim num “curto” período entre os reinados de mamãe e daquela que disse “sim” no altar a um sujeito tão bem resolvido no assunto. Resolvia não comprar sozinho e pronto.
Nos últimos vinte anos, a escolha passou a ser uma questão de opinião. Minha consultora para assuntos capilares aparecia de vez em quando com um produto novo e eu opinava que ela sempre tinha razão.
Aos poucos, fui ficando cada vez mais independente e já ia ao supermercado sozinho. Bastavam uns poucos telefonemas para obter informações básicas, como nome, marca e cor da embalagem. Ultimamente, vinha usando um à base de açaí, com frasco verde escuro, indicado adivinha por quem? Ela gostou, mas prevaleceu o meu parecer definitivo e irreversível: eu também.
Corria tudo bem até o dia em que um fato inesperado me deixou com os cabelos arrepiados. Fui à prateleira de sempre e não encontrei o xampu. Fiz um pente fino com idas e vindas pelo corredor e nada. Fui a outro supermercado e nada também. Parti para o terceiro e lá se foi o último fio de esperança. Respirei fundo e tomei uma decisão difícil, de fazer uma compra puramente técnica. Fui pelas cores das embalagens.
Uma amarela prometia recuperar a aparência original, reparando três anos em um mês. O xampu verde claro anunciava que acabaria com o cabelo armado, mas o meu sempre foi de paz. Havia um branco que oferecia maciez prolongada, um vermelho que garantia a restauração dos fios quebrados… Tudo parecia igual, com uma exaustiva repetição de palavras como maciez, brilho, volume, hidratação, penteado… Fiquei ainda mais intrigado com a frase “nutre de dentro para fora”. Foi aí que tive um gesto de muita firmeza. Peguei um amarelo bebê com inscrição específica para pessoas de atitude, como eu: “neutro”.
Os dias seguintes correram sem problemas. Lavava, enxaguava, secava, penteava… Foi assim até o dia em que percebi que a embalagem estava completamente vazia, bem na hora que mais precisei. Ali, sob o chuveiro, peguei um frasco azul compridinho e mandei ver. Vi que o conteúdo também era de um azul bem forte, coisa de homem mesmo. Já no espelho, notei algo diferente. Não sei direito o que era, mas gostei. Quase não precisei pentear e depois ainda ouvi elogios.
De novo em casa, fui pegar a embalagem azul compridinha pra ver do que se tratava aquele produto feito especialmente para mim. “Girls”. E para não deixar dúvidas: “cabelos longos e finos”. No outro dia, no supermercado, voltei a ser neutro na cabeça.
Algum tempo depois, contei a história ao Antenor, o cara da tesoura que tem minha confiança e fidelidade desde o fim dos anos 80. Ele achou graça e me deixou 50% mais tranquilo, com um “seu cabelo não é longo, mas é fino”. Depois, explicou que o xampu só serve pra limpar e que o resultado varia de pessoa pra pessoa…
Em seguida, ele aumentou meus problemas em 100%, dizendo que o mais importante é o condicionador. Então, já que é assim, o negócio é não se descabelar. Isso mesmo, duas vezes “girls”. Frascão azulão, compridão, conteudão azulão também. Bem brucutuzão…

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