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Cinquenteener fechado (ou aberto?) para balanço

Haisem Abaki

20 de junho de 2020 | 11h52

Alguém especial, à distância, me passa uma receita de pão, dá dicas valiosas para o preparo e fala da sensação de colocar a mão na massa. E também pergunta se, além de trabalhar em casa, fazer exercícios entre quatro paredes e ser aprendiz de culinária árabe, ainda estava conseguindo cuidar da saúde mental e não me contaminar com tantas notícias ruins e tantos ódios expostos sem máscaras durante a pandemia.

Respondi que sim. Sim, apesar de algumas indignações de consciência que não me permitem ser omisso. Mas no geral tenho deixado os raivosos falarem sozinhos, com as gotículas de raiva contaminante caindo neles mesmos a cada manifestação de indiferença ao sofrimento alheio e de ira contra quem discorda da “liberdade de expressão” que só cultuam quando esta é para eles próprios em seus falsos arroubos patrióticos.

Tirando a imensa saudade de gente querida, vai tudo muito bem, obrigado. Sou um privilegiado por chegar a uma “noventena” trabalhando em casa. E nesses três meses meu bom companheiro de cabeceira é um tal de Codec Tieline, um decodificador de áudio ligado ao modem e que me faz falar com o mundo lá fora. Explicando assim parece impessoal. É Tailaine, como a gente que é do Rádio gosta de chamar. E pra mim não é só um equipamento frio conectado na tomada e com um microfone e um fone de ouvido. É meu “colega” de trabalho, sempre caladão, mas que me dá voz.

Acordo às cinco da manhã, e ele tá lá, parecendo que nem dormiu. Não me dá bom dia, mas tá lá. O lá, na verdade, é aqui do lado. E por meio dele, instalado pelo companheiro Carlos Amaral, pronuncio as primeiras palavras do dia, antes de entrar no ar. “Alô Houston, alô Houston, fala com Mogi 56”. E o amigo Nelson Wolter responde lá do outro lado pra testar o som e preparar a decolagem. Depois aparece o Afrânio Wanderley, nosso outro piloto. E a Carolina Ercolin e a Bárbara Guerra também já estão aprontando tudo para a nossa contagem regressiva diária. Fica muito fácil viajar com essa tripulação tão boa, que não se abala com nenhuma turbulência.

Ninguém está se vendo, mas parece que estamos olho no olho o tempo todo. De vez em quando fazem chamada de vídeo a pretexto de combinar alguma coisa, mas eu sei que o motivo real é a saudade que sentem de mim. A minha também é grande. Às vezes me dá até um suor nos olhos. Mas é uma reação muito rara, que só costuma aparecer de manhã, de tarde, de noite e de madrugada.

Rola também quando falo com minha filha e meu filho e com outras pessoas guardadas em uma gaveta no coração. De vez em sempre abro essa gaveta e não consigo ver o fundo de tanta coisa boa que tem lá. Só que esse efeito emocional passa rápido. Dura só 24 horas, sete dias por semana. O querido Tailaine assiste a tudo isso, mas não fala nada.

Esses 90 dias também revelaram um estagiário gastronômico de 56 anos, orientado pelas receitas da mãe paciente. Quando não estou pertinho do Tailaine, minha relação de amor passa a ser com panelas, facas, temperos e cheiros. Mas resisti um pouco até tomar coragem pra encarar a farinha de trigo. Ficava só ensaiando e olhando pro Tailaine, que não falava nada.

Nunca pensei que colocar as mãos em massa de pão pudesse me proporcionar leveza de espírito e me levar a um momento que para os meus padrões de inquietação já é um estado de meditação. Foi um esvaziamento completo da mente ver e ter a sensação do surgimento do pão a partir da mistura de farinha, água, óleo, sal, açúcar e fermento. Tailaine me viu nesse estado de espírito, mas não falou nada.

Outro momento de limpeza mental vem com as rockaminhadas de uma hora, com música no volume máximo. Já foram quase 600 quilômetros em três meses, com a alma viajando sem sair de casa. São dez passos entre a bancada da cozinha e a janela do quarto que viram sete quilômetros, mas que podem chegar a oito, nove, dez, quando me distraio e não ouço a voz da doce moça do aplicativo. Passo perto do Tailaine e bebo muita água. Ele tudo vê e não fala nada.

E esses pensamentos todos se misturaram em mais uma rockaminhada quando tocou In My Life, dos Beatles. A música, como diz a letra, acabou me remetendo para lugares e pessoas. E de repente me vi refletindo, como se estivesse fechado, trancado e isolado pra balanço. Mas não. O que veio depois disso tudo foi uma certeza. A certeza de que estou, sim, em período de balanço. Mas aberto pra balanço.

A mão na massa com a delicadeza dos ensinamentos de alguém especial, as deliciosas receitas maternas, gente que amo nos porta-retratos da minha “pista” diária, as rockaminhadas com suas mensagens certeiras e o privilégio do trabalho que dá prazer estão neste balanço, que ao fim de tudo espero que seja positivo. Fim ou começo? Tailaine, você é testemunha disso. O que você acha? Tá bom, fica aí, caladão. Veremos quando o mundo lá fora permitir o abraço de novo. O “padeiro” espera ter amor quentinho a toda hora.