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Cílios grandes, olhos assustados

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 14h49

Publicado pela 1ª vez em 04/07/2008
Conheci um sujeito meio caipira, que não gostava do barulho de São Paulo. Ele não morava tão longe da metrópole e um dia teve uma oportunidade de trabalho lá. O rapaz já tinha carteira de motorista, mas ficava apavorado com a idéia de dirigir na Marginal do Tietê.
Para sorte dele, o novo emprego ficava bem perto de uma estação de metrô. Era uma caminhada curta, de menos de dois quarteirões. O horário não ajudava muito, mas pelo menos o deixava livre da barulheira da cidade. Ele desembarcava do trem perto da meia-noite, e seguia em passos rápidos ao passar em frente aos botecos que se concentravam naquele curto percurso.
Numa noite, dois rapazes mexeram com o caipirinha:
– Vem cá, neném…
Ele ficou com medo de um possível assalto, apertou ainda mais o passo e, quando percebeu, já estava correndo. Chegando ao trabalho, caiu na besteira de contar o ocorrido e logo começou a ouvir as gozações. Não havia motivo para susto, era apenas um bar temático, frequentado por pessoas alegres e assumidas.
Aos poucos, o rapaz foi se acostumando com a cidade e o horário. Tanto que nem se importou uma vez quando, ao ir embora, já com o dia claro, ouviu um comentário de dois sujeitos (seriam os mesmos?) que saíam do bar:
– Nossa, mas que cílios grandes que você tem!
Ele não olhou, mas não apertou o passo e seguiu calmamente para o metrô.
No trajeto diário que fazia, ele também se acostumou a encontrar moradores de rua, catadores de papelão, torcedores que vinham do estádio do Pacaembu e uns bebuns. Nada mais o impressionava naquele ambiente.
Um dia isso mudou e foi de forma traumática. O caipira se atrasou um pouco e saiu do metrô Santa Cecília, perto da igreja da mesma santa, no exato momento da badalada da meia-noooooooite.
De repente, percebeu um vulto que vinha na direção dele e sentiu um frio na espinha. O coração disparou e quase saiu pela boca quando ele viu aquele ser cada vez mais próximo, pensando que era uma visão do além.
O assustado rapaz notou que era uma alma feminina e que tinha até corpo. A garota era esquelética e pálida, muito braaaaaanca. Vestia roupas roxas e pretas que ele não sabia descrever, mas que pareciam ser calça e túnica. No pescoço, carregava um crucifixo. Quando se aproximaram e ela o encarou com olhos negros e penetrantes, ele sentiu uma fisgada na nuca e, antes de sair em disparada, emitiu uma frase que até hoje não sabe de onde saiu (da boca é que não foi):
– Deus me livre e guarde!!!
Passou em frente ao bar dos alegres rapazes feito um foguete.
– Aonde você vai com tanta pressa, neném dos cílios grandes???
No trabalho, os colegas logo perceberam que algo estava errado. O ofegante rapaz bebia água deixando o líquido escorrer pelo rosto, como se tivesse encontrado um oásis no deserto.
– Que é isso, cara? Até parece que você viu um fantasma!
O ingênuo garoto contou então a sua aterrorizante experiência e levou a pequena platéia às lágrimas. Quem ouviu chorou… de tanto rir.
Não era uma alma do outro mundo, mas apenas a frequentadora de um bar gótico da região. Só aí ele descobriu que os góticos são pessoas com ar triste, que freqüentam cemitérios e o mundo das treeeeeevas.
– Quer ir lá um dia?
– Deus me livre e guarde!!!
A lembrança dessa história voltou dia desses, quando passei perto da Igreja de Santa Cecília. Dezessete anos depois, pensei de novo naquele rapaz. Ele, saindo do metrô e andando a passos rápidos. Eu, de carro. Ele, incomodado com a cidade grande. Eu, acostumado com a loucura da metrópole. Ele, quase ingênuo diante do que via à sua volta. Eu, sabendo conviver com as diferenças. Ele, assustado com o que parecia ser uma alma penada. Eu, pensando que já vi tudo, ou quase tudo.
Nossa, como sou diferente daquele cara! A não ser pelos cílios, que continuam grandes!

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