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Carta de um pai previsível

Haisem Abaki

20 Abril 2018 | 11h24

Carinha, tudo bem? Já sei o que você tá pensando… Lá vem o meu pai de novo com mais uma crônica por causa do meu aniversário! Pois é, eu sou mesmo muito previsível. Você sabe bem disso e já se acostumou com as histórias que eu repito “de vez em sempre” nesses seus 15 anos. Mas a sua reação também é uma repetição, com um sorriso tímido e às vezes uma risada disfarçada, escondendo o rosto.

Que eu te amo também não é novidade, porque eu digo isso, previsivelmente, todos os dias. E não sou nada original com a sua irmã que, com previsibilidade garantida, ouve as mesmas palavras diariamente. Ela é mais efusiva, gosta de falar e me manda carinhas sorridentes e coraçõezinhos nas mensagens. Você só responde com um “também” oralmente ou com um direto “tb” por escrito. Mas pra mim é mais do que suficiente.

E é mais do que suficiente porque você fala comigo pelo olhar e sabe o que vai acontecer para toda a existência quando a gente se encontrar. Lá vem o meu pai previsível pra me dar mais um beijo e um abraço longo e apertado! Sim, pode esperar porque pra mim beijos e abraços são inegociáveis, moleque!

Outra coisa que você já sacou bem é que sempre vou fingir que quero pegar na sua mão, só pra você desviar e dar aquele sorriso tímido e maroto. Tentativas que, de modo previsível, só ocorrem em pouquíssimos momentos. Pouquíssimos mesmo, apenas no shopping cheio, no cinema cheio, na padaria cheia e nas minhas “ameaças” de te esperar na porta da escola pra atravessar a rua segurando na sua mão.

Na minha imensa previsibilidade, você também só vai ouvir umas 914 vezes eu perguntar se você tá bem, se tá tudo certo na escola e se conheceu alguém legal. E pode incluir nessa conta as minhas previsíveis cobranças pra você ler um pouco mais, seguidas de inéditas e criativas frases do tipo “leitura é fundamental pra qualquer profissão e mais que isso é fundamental pra vida”.

Carinha, eu sempre soube que você ia crescer e virar meu amigo e companheiro. E mesmo sendo um sujeito previsível fiquei surpreso aquele dia na padaria, a gente sentado frente a frente pra comer um lanche, quando tive um “incômodo” com origem de baixo da mesa. Lá vem o meu pai previsível contar na crônica que sentiu pela primeira vez o meu joelho batendo no dele!

E hoje, como previsivelmente faço, é dia de celebrar a sua vida, os seus 15 anos. E de ser grato por ter um filho que mesmo falando pouco é capaz de me entender como aconteceu naquele dia em que eu te expliquei tudo sobre a morte do seu avô, a minha depressão e as minhas escolhas e ganhei ao mesmo tempo um abraço de homem e de menino. Pronto, lá vem o meu pai previsível dizer que ficou com “suor nos olhos” de novo!

Pois esse “suor” tá demais, rapaz… Voltou nessa semana quando vi que o Papa Francisco disse a um menino órfão que ele podia continuar conversando com o pai. Eu ainda faço isso… Lá vem o meu pai previsível outra vez pra contar que fala com o meu avô! Falo, sim, garotaço. E já me coloco à disposição de você e da sua irmã para quando for a hora. Espero que demore, mas estarei previsivelmente a postos se o que é previsível para todos nós acontecer comigo de modo imprevisível.

Mas não pense nisso agora, tá? Deixe a vida rolar, seja feliz e faça as pessoas felizes, como sempre, do alto da minha previsibilidade, te recomendei. Eu poderia escrever mais, mas já deu a hora. Olha aí no alto do texto, carinha. Ali, logo depois do título. Viu? O meu nome, a data e, e, e? Pronto, lá vem o meu pai previsível publicar mais uma crônica bem na hora em que eu nasci, sempre às 11h24…