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Carta da maioridade de um amor eterno

Haisem Abaki

20 de abril de 2021 | 11h31

E aí, carinha, tudo bem? Já sei o que você tá pensando: “lá vem o meu pai usando o diminutivo de novo e com mais uma crônica no meu aniversário”. Calma, rapazinho. Não é bem assim. É só… o seu pai usando o diminutivo de novo e com mais uma crônica no seu aniversário. E apenas sendo, quase que de maneira inédita, um pouquinho previsível e repetitivo.

Mas não é pra tanto. Isso só aconteceu quando você fez um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, treze, catorze, quinze, dezesseis e dezessete anos. E também naqueles pouquíssimos dias do ano que não são 20 de abril. Nos demais, você sabe que sou um sujeito “normal”, né?

Tirando esses raros momentos, só penso em você e na sua irmã de segunda a domingo. E é uma imaginação bem pontual, que só rola de manhã, de tarde, de noite e de madrugada, quando acordo pra trabalhar. Às vezes acontece em dias de sol. Outras, em dias de chuva. Ah, claro, também ocorre com alguma frequência na primavera, no verão, no outono e no inverno. Mas nas demais estações não há registros de tal pensamento. A não ser entre a Palmeiras-Barra Funda e a… (qual mesmo?) naquele tempo das aglomerações que agora parece distante.

Mas, carinha, ultimamente eu tô ruim de previsibilidade. Achei que, nos seus 18 anos, a gente teria uma sessão de abraços apertados, uns baitas beijos, palavras de carinho que você ouve com timidez e sorriso maroto e um “suor” nos meus olhos. Os abraços apertados e os baitas beijos não serão possíveis, assim como não foram nos seus 17 anos. Então, não vai ter o “ih, lá vem o meu pai de novo me encher de beijos na frente dos meus amigos”. De molhado mesmo, só posso garantir aquele liquido que sai da nossa (porque você também tem) visão arregalada do mundo.

Esse mundo tá de arregalar os olhos mesmo! Você já ouviu as minhas tristezas nas nossas conversas sobre a matança do vírus e gente que espalha ódio, intolerância e desinformação. Mas eu, repetitivo que sou, sempre tento terminar com alguma esperança antes de dizer “tchau, te amo” e ouvir como resposta o seu “também”, que escrito vira “tb”. Não tem problema, essas duas letrinhas já são suficientes pra aquecer o coração nesses tempos tão difíceis.

Esses momentos bastam pra me fazer esquecer um pouco de um ano triste, que não teve aniversário presencial nem palmas em uma festa que seria da sua formatura. Também não tivemos aqueles almoços em que você pedia pra ir à padaria, batia um pratão e colocava só um tiquinho de refrigerante no meu copo. Nem você querendo Mentos e escondendo pra não dividir comigo. Tudo bem, eu também passei o ano sem dividir Bis com você. Estamos empatados.

Mas você sabe que não temos do que reclamar. Estamos vivos! E estar vivo é o que eu mais quero, pra um dia, todos nós vacinados, poder voltar aos nossos abraços e beijos na frente dos seus amigos. Dica: a sua irmã não reclama quando faço isso, fala com ela… Vocês dois são um bom motivo pra se querer viver. E você, que nasceu em um Domingo de Páscoa, já me faz completar 18 anos de renascimento.

Talvez a esta altura você já esteja pensando que “lá vem o meu pai de novo encerrando a crônica e dizendo que foi publicada às 11h24, bem na hora em que eu nasci”. Não, carinha. Dessa vez eu deixei passar uns minutos pra me lembrar do nosso olhar se cruzando pela primeira vez. Viu? Não sou tão previsível assim. E escrevi na véspera do seu aniversário. A minha imprevisibilidade agora é deixar o previsível pronto com antecedência. Igual ao meu coração, que foi programado para o modo “amor eterno” nove meses antes de um Domingo de Páscoa. Descobri essa tecla nove meses antes da chegada da sua irmã a este mundo. E você me deu uma nova aula de amor multiplicado quatro anos depois. Só vocês dois pra serem melhores do que chocolate…