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Carta a uma “quase” adulta

Haisem Abaki

04 de dezembro de 2015 | 09h52

Hoje é papo reto com alguém que está à espera da maioridade, que chega daqui a exatamente um ano. É com você aí, mocinha apressada. Já queria nascer antes da hora. Não foi fácil para a dona da barriga segurar a sua vontade de ver o mundo aqui fora. Ainda assim, você resolveu sair do abrigo com seis dias de antecedência. E já foi me encarando com os olhos arregalados. Mas fez sua estreia na vida amarelinha e acabou ficando cinco dias no banho de luz.

Em casa, logo nos primeiros dias, você, apesar de dormir bastante, já demonstrava expressividade e parecia querer se comunicar com a gente. Nada daquela história boba que eu tinha ouvido de que “todo bebê tem cara de joelho”. Ah, mas se tivesse seria o joelhinho mais lindo que já vi. E não parava de olhar para os ursinhos do papel de parede. Acho até que já conversava com eles em “nenezês”.

E nada de ficar parada, enrolada ou em forma de “tubinho” como algumas pessoas mais velhas diziam que deveriam permanecer os recém-nascidos. Você sempre se mexia muito, pra lá e pra cá, como se já quisesse sair do berço. Foi numa dessas sacolejadas que caiu do carrinho, danadinha. Sua mãe se sentiu culpada, mas estava tudo certo. E ninguém mais do que a melhor pessoa das nossas vidas saberia cuidar tão bem de você. Nunca se esqueça disso, tá?

Suas mamadas também eram rápidas, como se você não tivesse tempo a perder. E os “efeitos” não demoravam muito. Vapt-vupt…  Bom, pelo menos era essa a minha sensação de constante frequentador do setor de fraldas do supermercado. Não saía de lá.

Com você, aquele negócio de “gu-gu-dá-dá” não rolou muito tempo, não. Logo já estava falando e ampliando o vocabulário. E andando pra todo lado sem parar, apontando para as coisas e seguindo em frente para a próxima descoberta. Como no dia em que “perdemos” você durante as compras. Só estava sentada num corredor, mexendo numas latas, calmamente.

No colo da gente, em alguma fila, você sempre puxava papo com alguém que estava atrás, arrancando os melhores sorrisos de caras fechadas. E ainda nos apresentava a estranhos, dizendo mamãe e papai e deixando bem claro, com o dedinho, quem era quem.

Com tanta desenvoltura, você, sua “caradepauzinha”, não teve dificuldades pra se enturmar na escola. Entrou na boa e nem ligou pra nossa preocupação. Os professores só falavam bem de você, sempre muito comunicativa. É assim até hoje. Só que precisa parar com essa mania de fazer as provas correndo, pô! Sei… Vai dizer que eu também achava um saco ficar na sala até o fim.

Ah, teve também aquela fase em que você adorava repetir uma palavra de muita sonoridade. Bunda, bunda, bunda… Passei vergonha diante de uma vizinha no elevador, quando você soltou um “tia, você é bunda?”. Ordenei um “castigo” no quarto e fiquei rindo escondido na sala. E você lá, dizendo “pai, eu não vou mais falar bunda”, só pra sair rapidinho. Foi na minha direção repetindo bem baixinho “bunda, bunda, bunda” e, quando me viu, disse “bandeirantes”. Rimos em abundância.

E tanta coisa aconteceu nesses 17 anos que passaram com o pé no acelerador da vida… Livros lidos vorazmente, ídolos da música descobertos freneticamente, amizades sinceras que você mantém até hoje, a chegada do seu irmão, a partida do seu avô, o dia em que você virou “mocinha”, os papos intermináveis simplesmente falando depressa sobre “tudo”, a doida paixão pelo Palmeiras, a notícia sobre o primeiro namorado… Eita!

Agora você fala em votar, mas desconfia dos políticos. Pensa numa profissão “de Humanas” e em ganhar o mundo. Faz projetos, sonha e se prepara para ser uma motorista. Caramba, você pensa e fala sem parar sobre diversos assuntos ao mesmo tempo! Parece ansiosa demais pelos 18 anos…

Não, pensando bem, acho que a maior ansiedade é minha mesmo. Eu é que estou na contagem regressiva (365, 364, 363…) para atingir a maioridade como seu pai, minha linda. Mas o negócio é relaxar e aproveitar cada dia e cada momento ao seu lado. Então, hoje faz 17 anos que te amo eternamente. Na verdade, 17 anos e nove meses. Isso começou lá na barriga da mamãe, no dia em que o exame deu positivo. Mas sou muito controlado. Totalmente controlado… Controladíssimo… O que foi?