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Carta a uma (para sempre) menina

Haisem Abaki

04 Dezembro 2016 | 05h45

A semana do seu aniversário começou feliz em verde e branco e se transformou em triste nas mesmas cores. No domingo e na segunda, já na contagem regressiva para a data, comemoramos juntos mais um título do Palmeiras. Mas na terça tudo mudou com a tragédia da Chapecoense.

Percebi você mais introspectiva e com tom de voz de lamento nesses últimos dias. E também solidária com o sofrimento das pessoas e de uma cidade. Ainda assim, demonstrou preocupação comigo e me mandou mensagem pra perguntar se eu tinha algum amigo naquele avião.

Oficialmente, não. Mas me veio uma forte lembrança do seu avô, que sempre dizia que “amigo do meu amigo também é meu amigo”. Então, sim, eu tinha muitos amigos no voo que não chegou ao destino.

E, por falar no seu avô, nós sabemos como é perder alguém de forma trágica e inesperada. Fiquei com a imagem do velório dele na cabeça. Achei que tinha que preservar você e seu irmão da cena e do assédio. Mas você quis ir lá e demonstrou maturidade e solidariedade aos oito anos, segurando na mãozinha do seu irmão o tempo todo. E assim, no pior momento das nossas vidas, descobri quem você seria: uma pessoa que estende a mão para quem precisa.

Esse ano foi muito difícil, mas você foi compreensiva e sempre esteve por perto com um abraço apertado, com bons papos, olhos nos olhos e segurando na minha mão na rua e no shopping. E ainda passou três dias comigo no hospital. Fiquei triste e com “suor nos olhos” ao me despedir de você e ir para a cirurgia, mas foi muito bom acordar da anestesia e ver você perguntando se estava tudo bem.

Muito melhor é saber que você é assim com todo mundo e que está pra fazer uma escolha profissional preocupada com a pobreza, o abandono, as injustiças, a marginalização, a intolerância, o preconceito… E que é capaz de pegar um cachorro na rua e levar pra casa.

Aprendi muito com você e agradeço pelos momentos inesquecíveis que vivemos. Hoje, finalmente, atinjo a maioridade paterna. Dezoito anos! Esperei ansiosamente por esse dia e acho que isso me dá o direito de fazer uma exigência. Só uma… Seja para sempre essa menina. Não, duas exigências… Não larga da minha mão.

E, como sou um cara beeeeem original, termino do jeito que falo todos os dias, pessoalmente, por telefone ou por mensagem… Te amo! São só uns 6.570 dias dizendo isso. Mas você também é beeeeem criativa na resposta. Adoro ouvir! Dá pra repetir? Vamos fazer isso somente a vida toda…