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Carta a uma mocinha de quinze

Haisem Abaki

04 Dezembro 2013 | 18h45

Meus últimos quinze anos foram felizes mesmo nas horas tristes. Tenho na memória o momento exato em que tudo começou. Foi quando nossos olhares se cruzaram pela primeira vez, logo que você nasceu. Até me esqueci do Zidane, que tinha acabado com o Brasil meses antes, na Copa. E superei o medo de trocar de emprego num momento tão delicado, perto da sua chegada.
Veio 1999, o ano em que diziam que o mundo ia acabar. As pessoas só falavam de Nostradamus e eu só queria ficar com você no colo, imaginando o seu futuro. E você foi apresentada pela primeira vez à minha doideira naquela noite em que foi sacudida nos meus braços. Ganhamos a Libertadores e nem liguei muito quando perdemos o Mundial porque pude olhar para os seus olhos calmos.
Chegou o ano 2000, em que só se falava de um tal de “Bug do Milênio”. Os computadores ficariam loucos e o mundo entraria em colapso. Tudo bobagem. O importante era ver você andar e tentar entender as “conversas” que já puxava, inventando palavras.
Em 2001, você ainda tinha medo das ondas do mar e de colocar os pezinhos na areia. Chorava muito diante desses “perigos”, pedia colo e me abraçava escondendo o rosto daquele cenário “aterrorizante”. Bem que eu tentei dizer que você não precisava ter receio. Depois, resolvi tirar proveito da situação. Abraço gostoooooso…
O ano seguinte foi agitado. Eleição, Brasil pentacampeão, nosso time na segunda divisão… Mas tudo ficava para trás nos fins de tarde em que íamos buscar você na escola. Os seus beijos e abraços na saída do colégio eram suficientes para apagar todo o cansaço de quem acordava de madrugada pra trabalhar.
Entramos em 2003 e você estava ansiosa depois da notícia de que teria um irmão. Ele veio na Páscoa e você, com a boca cheia de chocolate, ficava pedindo pra pegar o bebê no colo. Dava medo e felicidade ao mesmo tempo.
Mais um ano e chegou uma idade “cheia” para mim: quarentinha. Foi quando comecei a fazer contas projetando a nossa diferença etária ao longo do tempo. Ainda bem que você me interrompia, sempre contando alguma história, falando sem parar.
Também trabalhei quase sem parar no ano seguinte, achando que seria melhor pra você e seu irmão. Demorei um pouco pra perceber que não devia exagerar, mas nossos reencontros eram sempre alegres, até quando você ia para nossa cama e não me deixava dormir.
Em 2006, você entendeu o que era uma decepção. Fez uma carinha triste quando o Brasil foi eliminado na Copa. Eu ainda p… com aquela defesa da Seleção e você vira para o lado e começa a brincar. A vida seguia e você me ensinava.
Aí, chegou o ano mais triste das nossas vidas. O seu avô partiu e você foi madura. Quis ir ao velório e lá segurou na mãozinha do seu irmão, que ainda não entendia direito a cena. Naquela hora, descobri que você sempre vai estender a mão a quem precisa.
Em 2008 você completou a sua primeira idade redonda e só pedia pra sentar no banco da frente do carro na saída da escola. Demorei pra atender, mas depois fiquei feliz por ter uma garota pré-adolescente ao meu lado, sempre faladeira.
Não sou bom de contas, você sabe… Mas acho que foi no ano seguinte que você “virou mocinha”. Foi engraçado aquele dia em que eu estava na farmácia e você, ao telefone, me explicava qual era a cor da embalagem que eu tinha que comprar.
Em 2010 o trabalho era exaustivo e aconteceram mudanças importantes. Você quis saber de tudo e ficou ao meu lado. Parecia entender as coisas e fez algumas pausas no hábito de devorar livros e de ouvir música no último volume.
Mais um ano e você parecia cada vez mais mergulhada nas leituras e nas suas bandas preferidas. Mas não deixava de falar rápido pra me contar as histórias que lia (não precisava revelar o final) e pra explicar quem eram Tokio Hotel e Jessie J.
Em 2012, você me deu mais uma lição. Primeiro comemorou quando o Palmeiras ganhou a Copa do Brasil. Depois, ficou triste com o rebaixamento no Campeonato Brasileiro e disse que “agora que é hora de torcer ainda mais”.
E chegamos ao ano dos seus quinze anos. Na contagem regressiva, notei que você começou a me fazer perguntas sobre notícias do dia a dia, a dar opiniões e entrar em polêmicas sem medo de se manifestar.
Só agora percebo que tudo passou tão rápido assim e estamos neste quatro de dezembro. Hoje faz quinze anos que te amo para sempre. Quinze anos e nove meses, pra ser mais exato.