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Carta a uma menina de vinte

Haisem Abaki

04 Dezembro 2018 | 05h45

Passei um tempo ausente aqui e você sabe como a minha vida ficou corrida. Tive que ficar ao lado da sua avó no hospital, mas agora está tudo bem. Você também esteve lá, em algumas noites longas.

E depois, como você notou, perdi um pouco o tesão de escrever ao ver uma campanha eleitoral com tanto ódio e tanta mentira. Falar sobre o assunto já me consumia no Rádio, com os intolerantes de cada lado entendendo somente o que queriam entender. Teve um que até fez ameaças, mandando eu “ficar esperto”. Deve ter ouvido quando fiz uma referência a ele no ar, “morreeeeeendo” de medo do valentão de rede antissocial.

Mas não vim aqui pra falar desses caras. Tá bom, foi um desabafo introdutório e pronto. Eu vim aqui pra falar com você e de você. Semana passada vi uma foto recente nossa e senti saudades. Fazia somente uns poucos dias que a gente não se via. Então, percebi que está acontecendo um negócio estranho comigo. Estou sentindo saudades “antecipadas”. Vejo alguma foto nossa de agora e já imagino que ela vai ser lembrança em um, dois, três anos…

Outro dia vi a notícia do início da venda de ingressos para o carnaval e fui checar o calendário pra saber o dia em que você vai desfilar. A sua escola nem passou ainda e eu já me imaginei um tempo depois sentindo saudades de você tocando surdo e sorrindo, sorrindo e tocando surdo, tocando surdo e sorrindo…

Depois, você me falou que estava se candidatando a uma vaga de estágio e me pediu uma dica sobre como se apresentar em um texto ao empregador. Dei minhas “sábias” orientações, desliguei o telefone e já me vi um ano depois sentindo saudades do que tinha acontecido segundos atrás.

Aí, no domingo em que o Palmeiras foi campeão contra o Vasco lá no Rio, você me manda duas fotos com a camisa do nosso time e avisa que está em um bar perto do estádio que você ainda gosta de chamar de “nosso Palestra Itália”. Respondi com aqueles meus emojis de sempre: o coração vermelho, o coração verde e o porquinho cor-de- rosa. Em seguida, gravei mensagem pedindo pra você tomar cuidado na volta pra casa. A parte que você não sabe é que arquivei a foto e “viajei” uns anos pro futuro só pra sentir saudades “antecipadas” de novo.

Bom, ansioso eu não sou, eu acho. Não sou do tipo que sofre por antecipação. Mas foi aí que me dei conta de tudo de bom e mais um pouco que você trouxe pra minha vida. Mais amor, mais leveza, mais preocupação, mais risadas, mais vontade de trabalhar, mais momentos de preguiça ao seu lado, mais ousadia, mais cuidado…

Claro que eu também sinto aquelas saudades “normais”. De você bebê, de você começando a andar e a falar, de você pegando o seu irmão no colo quando ele chegou em casa, de você descobrindo os livros e o mundo, do seu medo do mar e da areia da praia, dos seus boletins com notas altas, das festas na escola, das suas formaturas, de você entrando na faculdade, de você começando a namorar (até disso!), de você indo morar sozinha… Enfim, eu sou “normalzinho” e também sinto saudades do passado como todo mundo.

Mas somente agora, vinte anos depois da sua chegada, percebo esse troço maluco que é sentir saudades de momentos que ainda vão acontecer. Só que não vou deixar isso fugir do meu controle, de jeito nenhum. Por isso estou publicando que te amo desde sempre e para sempre às 5h45 de um 04 de dezembro, no exato momento em que você veio ao mundo e me olhou pela primeira vez.

Estou no controle absoluto da situação e dos meus sentimentos. E decidi sentir saudades agora! Sim, com hora marcada. A primeira das duas melhores horas da minha vida, com prazo de validade carimbado para a eternidade no meu coração. Quando você terminar de ler já estarei com saudades de imaginar você terminando de ler.