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Carta a uma menina de dez

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 15h16

Publicado pela 1ª vez em 04/12/2008
Meu amor por você começou pelo telefone. Era o começo de abril de 1998, quando a moça do laboratório ligou. Já estávamos tentando ter você há algum tempo e por isso ela tinha uma certa intimidade com a gente. A notícia veio sem rodeios e em tom de euforia:
– Deu positivo!!! Parabéns!!!
Num primeiro momento, as exclamações me deixaram meio tonto. Depois, fiquei mudo e paralisado e passei o telefone para a dona da barriga que já abrigava você.
Em poucos minutos, seus avós, tios e tias, de verdade e postiços, já sabiam do início da sua existência. Sempre admirei os olhos, a boca e o sorriso constante daquela que já carregava você, mas de repente percebi que só conseguia olhar para a barriguinha dela.
Por um instante esqueci minha ruindade em matemática e fui fazer umas contas. Fiquei em dúvida se você chegaria no fim de novembro ou no começo de dezembro. Não foi por acaso que sempre tirei notas baixas nessa disciplina.
Já tinha passado da fase de me importar com horóscopo, mas naquele mesmo dia me vi fazendo projeções. Pelos meus cálculos, você seria de Escorpião ou Sagitário. Então, pesquisei para saber se o seu signo combinaria com o meu, Gêmeos, e com o da dona da outra ponta do cordão umbilical, Leão. Você resolveu ser sagitariana. Já com os primeiros sintomas de “pai babão”, só notei as semelhanças positivas que os astros nos reservavam.
Apesar da felicidade do telefonema, queríamos ler o “positivo” escrito no papel. Inexperiente, depois disso eu só pensava no primeiro exame. Fiquei ansioso para ver você se formando, ouvir o seu coração e gravar tudo.
Quando finalmente você apareceu na tela, foi amor ao primeiro ultrassom. Pra falar a verdade, parecia mais um feijãozinho, mas já era um pedacinho da gente. De cara, achei que você seria você: uma menina.
Um dia apareci em casa com um livro que trazia os significados dos nomes. Escolhemos alguns que de vez em quando eu pronunciava ao pé da barriga, à espera de uma reação. O seu nome significa “pessoa cheia de vida, vivaz”. Achamos perfeito, mas deixamos outro na reserva, de menino, que mais tarde serviu para o nosso mais novo amor, o seu irmão.
O tempo foi passando e comecei a engordar. É que a dona do seu primeiro lar, sempre cheia de cuidados com a nossa alimentação (“Frituras só uma vez por semana”, ela dizia), passou a ter um louco desejo por bataaaaata friiiiiiiita. Foi um prato cheio para mim. Só não gostava do limão que ela espremia em cima (blah!).
Eu só pensava no próximo ultrassom, o próximo, o próximo e o próximo. Um dia vimos você com a cabeça jogada para trás e com o narizinho empinado, do jeito que dorme até hoje. Foi amor ao segundo, terceiro, quarto, quinto… ultrassom. Quando o médico perguntou se queríamos saber se lá dentro estava uma menina ou menino, acho que nem deixei que ele completasse a frase:
– Queremos!!!
Meus gostos literários mudaram repentinamente. Passei a procurar somente livros e revistas sobre bebês. Claro que o trabalho não me deixava pensar nisso o tempo todo. A missão ficou com quem embalava você. A vida continuava e a minha cabeça precisava se voltar para outros assuntos, como… o berço, o carrinho, o papel de parede. Eu não podia parar só porque você ia nascer. Então, segui em frente e passei a me preocupar com… mamadeira, chupeta, roupinhas.
Você deu uns sustos na gente. Não parava de se mexer e um dia achou que já era hora de sair lá de dentro. Não era e o médico determinou repouso absoluto para ver se você sossegava.
Aprendi noções básicas sobre contrações e estava preparado quando numa madrugada, seis dias antes do previsto, você resolveu que já era hora de ver o mundo aqui fora. Espero que isso não tenha sido um prenúncio de mais hábitos noturnos.
Resolvi acompanhar o parto. Naquele dia, tive a certeza de que homem não foi feito para essas coisas, mas aguentei firme. Fui recompensado com os seus olhos arregalados voltados para os meus, ainda mais arregalados. Foi amor à primeira vista.
Nesses dez anos, não precisei da danada da matemática que você tanto gosta (puxou a mamãe!) para descobrir que tenho um amor à “infinitésima” vista. Só voltei a ficar mudo e paralisado há alguns dias, quando soube que, tecnicamente, passaria a ser pai de uma adolescente. Quem me deu a notícia foi o Dr. Maurício de Souza Lima, aquele médico especialista em adolescentes que entrevisto todas as semanas e que já virou um amigo (você achou engraçado quando ouviu a palavra hebiatra pela primeira vez).
Pensei em lhe dar um monte de conselhos, mas acho que posso resumir todos num só, que vai servir para toda a sua vida, principalmente nas horas mais difíceis: nunca se esqueça de como era o seu avô.
Agora que também acabo de virar “um pai adolescente”, prometo estar sempre por perto da minha menina com espinhas. Não vou fugir de nenhum assunto “de mulher” achando que não é comigo e transferindo a responsabilidade para quem carregou você por nove meses.
Pra terminar, digo, finalmente, o que você sempre quis ouvir:
– Tá bom, tá bom, você já pode ir no banco da frente!

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