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Carta a um moleque verde

Haisem Abaki

28 de novembro de 2016 | 12h57

Carinha, vi sua ansiedade logo cedo no domingão ensolarado. Acordou, tomou café e já queria saber das horas. E perguntou outras vezes, mesmo tendo o celular à mão.

Achei estranho você não querer ir ao parque ou à praça. Fui sozinho e corri menos do que o habitual. Só 8,3 quilômetros. Fiz a barba, tomei banho e você perguntou a hora de novo.

Depois, fez aquela cara de pidão, dizendo que estava com vontade de almoçar na padaria, dividindo comigo um frango à parmegiana com arroz e fritas. Falou até em dividir um guaraná de 600 ml porque sabe que sou um pai chato que pega no seu pé por causa de refrigerante.

E até marcou horário: uma e meia, você disse. E explicou que queria ver a chegada do time e a entrada em campo porque um amigo seu subiria ao gramado com os jogadores.

Enquanto falava colocava a sua camisa azul do Palmeiras, com o número 14 e o seu nome nas costas. Acho que esperava que eu já vestisse a minha verde com aquele P de Palestra, mas você sabe como eu fico suado. Então, fui de camiseta branca mesmo.

Fiquei feliz por você comer tudinho. E por ter reparado com um sorriso, na ida e na volta, quanta gente uniformizada compartilhava a nossa paixão. E achei engraçado você dizer que já está do tamanho do Dudu…

Da padaria para o supermercado. E você achou um caixa com fila menor pra que a gente voltasse logo pra casa. Aí, ficou lá, esperando o tempo passar, com os olhos grudados na TV e no temporal que desabava. Apesar de tudo, parecia calmo quando o sinal caiu e você disse que era só esperar reiniciar.

O juiz apitou, a bola rolou e você me deu aquele cumprimento nosso de tapinha e soquinho com a mão direita. E achou graça quando falei que o Palmeiras seria campeão porque o Cuca estava de calça vinho, o time de meias brancas e eu com aquela cueca da sorte que só eu e você sabemos a cor e que não é verde.

Fiquei observando suas reações, seus gestos, seus suspiros. E logo você ergueu os punhos pra comemorar um gol do Flamengo, que também era “nosso”. Mas depois veio o seu abraço por um gol nosso de verdade. E pelo apito final.

E a sua vontade de voltar à padaria pra comer coxinha e beber outro refrigerante, dessa vez sem as minhas ressalvas. Só agora percebo que na verdade não vi o jogo direito. Vi você vendo o jogo.

E agora entendo porque o seu avô me olhava tanto durante as partidas do Palmeiras. A alegria dele era me ver vendo o jogo, torcendo, vibrando, reclamando, xingando.

Porque ganhar ou perder é do jogo. Assim como a dor de cotovelo dos adversários quando fazem aquelas piadinhas. O importante é que você siga sendo como você é e entendendo, do alto dos seus 13 anos, que são apenas adversários, nunca inimigos.

Mas olha, tire um sarrinho, sim, sem medo de ser feliz. E continue a ser esse verdinho cada vez mais maduro de sorriso maroto e que já sabe que na vida, como no futebol, é preciso valorizar o trabalho em equipe, a dedicação e o respeito. Mas, cá entre nós, eu não falei que a minha cueca era infalível? Segredo nosso, rapaz.