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Cara de Pateta para ver o Mickey

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 14h08

Publicado pela 1a vez em 11/01/2008 10:09:16
– Paaaaaaai!
– Oi, linda.
– Um dia você me leva pros Estados Unidos?
– Hein? Mas onde nos Estados Unidos?
– Em Nova York e na Disney, você me leva?
Numa fração de segundos, pensei no custo da viagem e na canseira à espera do visto e respondi sem me comprometer.
– Vamos ver, um dia, talvez.
Ela interpretou como um sim e saiu feliz.
– Mãaaaaae, o papai disse que um dia a gente pode ir para os Estados Unidos!
Enquanto isso, meu pensamento já ia longe. O custo até que não seria o maior problema. Parcelando, daria-se um jeito. A encrenca mesmo seria o tal visto. Ainda mais para um sujeito com nome e sobrenome árabe, como eu. Será que tirar a barba resolveria? Não, não adiantaria.
Logo me imaginei na longa fila do consulado americano, fazendo cara de Pateta para ver o Mickey. Depois veio a lembrança das reportagens que fiz nos anos 90, quando a quase interminável espera ainda era em frente ao prédio da rua Padre João Manuel, na região da avenida Paulista. Era um dos poucos lugares onde cobertor e cadeira de praia faziam uma combinação perfeita nas madrugadas paulistanas. Lá, conheci um sujeito que vendia vagas na fila e dizia já ter comprado “uma casinha e um carrinho”com o serviço. Isso sim é que é sonho americano. O endereço mudou, mas a espera ainda tarda e muitas vezes falha.
Tudo bem. Pensei então, depois de todas as etapas da burocracia, como eu reagiria, na entrevista, se o funcionário do consulado fizesse a mesma pergunta que uma amiga da minha família teve de ouvir na última tentativa de visitar parentes no paraíso da democracia e dos direitos humanos.
– A senhora é sunita ou xiita?
Ela estranhou, mas disse a verdade (a primeira alternativa) e finalmente obteve o visto depois de três negativas.
Como é que eu poderia responder a uma pergunta como essa? Para simplificar tudo, diria apenas sunita, como era o meu pai. Mas esta não seria uma verdade completa. Valeria a pena explicar ao burocrata das perguntas prontas que, apesar de ser filho de muçulmano, estudei em escola católica? Se nem os amigos do meu pai entendiam, imagine o sujeito do carimbo.
– Por que você colocou o seu filho numa escola católica, Mohamed?
A resposta de alguém que enxergava nas religiões mais motivos de concordância do que de brigas e discussões, era tão simples que deixava os inquisidores sem graça.
– Porque não tem escola islâmica aqui na cidade!
Seria um nó na cabeça do carimbador. Como ele preencheria o formulário? Ateu, posso garantir que não sou.
E se ele me perguntasse sobre a política americana para o Oriente Médio? Aí a coisa ia ficar feia. Receberia na hora um carimbo de “negado”, a não ser que mentisse e fizesse de novo cara de Pateta, louco para ver o Mickey.
Achei que era melhor explicar tudo isso para a minha filha, que possui mais discernimento do que um burocrata contaminado pela paranóia de ser a polícia do mundo. Afinal, ela já tem nove anos!
– Lindiiiiiiiiiinha…

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