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Brasil, tão longe, tão perto

Haisem Abaki

25 de fevereiro de 2013 | 14h36

Publicado pela 1ª vez em 07/07/2010
Viajei para o outro lado do mundo para reencontrar as minhas origens. Dei de cara com elas ao desembarcar no aeroporto de Damasco, mas foi antes de ver meus tios e primos no saguão. Fui apresentado ao passado ainda na fila da Imigração, onde um funcionário quis saber os nomes dos meus pais e o que eu ia fazer na Síria. Ao ler algo no computador, o homem fez um sinal de “negativo” com a cabeça, escreveu um bilhete e me mandou para uma sala ao lado.
Não foi exatamente uma surpresa para mim. Quando tinha 11 meses de vida, meus pais decidiram voltar para a terra natal. Fui antes com a minha mãe e ela também me registrou como sírio. Poucos meses depois, meu pai desistiu do plano de ir embora e nos chamou de volta ao Brasil. Um dia, alguém do Exército apareceu na casa dos meus avós para cobrar a falta de patriotismo do neto, que não havia se apresentado para o alistamento militar. Na época, meus pais mandaram um documento para a Síria e tudo ficou bem.
Ficou bem até eu chegar ao aeroporto. Na sala para a qual fui mandado, havia um militar de bigode, muito sorridente e educado. Ele pediu que eu contasse o que havia acontecido. O ouvido esquerdo, ainda entupido pela viagem, se surpreendeu com a minha voz falando em árabe como se alguém tivesse apertado a tecla SAP. Quando o rapaz soube que eu tinha mãe, esposa e dois filhos à espera do lado de fora, já com o passaporte carimbado, pareceu ainda mais sensibilizado e quis apenas que minha mãe fosse chamada para confirmar as informações.
Enquanto esperávamos por ela, comecei a entender a gentileza. Ele passou a falar de futebol, disse que adorava o Brasil e que estava torcendo pela Seleção na Copa. Fiquei mais tranqüilo, mas a certeza de que tudo seria resolvido veio na frase seguinte:
– Brasil, Brasil! Argentina, não! Argentina fora!
Logo depois, minha mãe apareceu e repetiu tudo o que eu havia dito. O homem preencheu um papel e pediu que fosse entregue numa espécie de Tiro de Guerra da cidade para onde eu ia. Ele me mandou de volta para o funcionário da Imigração, que à segunda vista já parecia mais simpático. E então, finalmente, veio o momento mais esperado. Ele pegou aquele objeto de desejo e carimbooooooooou o passaporte. Eeeeeeeee, que carimbaaaaaaaaaço! Entrei na Síria com bola e tudo e corri para os beijos e abraços da galera que nos esperava no desembarque.
Dois dias depois, vi o Brasil fazer 3 a 0 no Chile com o narrador vibrando a cada jogada. O Bebeto, do tetra de 94, era um dos comentaristas, devidamente dublado. Entendi razoavelmente a transmissão após um rápido treino com outro “professor”, o Bob Esponja falando árabe até debaixo d’água.
Já estava começando a me acostumar com dois sons característicos da Síria: o dos alto-falantes das mesquitas chamando os fiéis para as orações e o das buzinas dos carros, que aqui funcionam como um instrumento de negociação. De repente, ouvi um barulho diferente e esquisito: rojões a cada gol brasileiro.
Com um fuso horário de seis horas a mais, saímos com meu tio perto da meia-noite para participar de uma carreata à beira-mar em Tartous, a cidade das minhas origens. Ficamos surpresos ao ver tantos carros com bandeiras do Brasil, buzinaço, fogos, bares e restaurantes lotados e centenas de pessoas pulando como se fosse carnaval e falando “Brazil” com sotaque.
Passei os dias seguintes ansioso pelo jogo com a Holanda e tentei aprimorar um pouco mais o meu árabe conversando com parentes e assistindo programas de TV. Foi quando vi o nosso senador Sarney elogiando a visita do presidente da Síria, que fez o caminho inverso ao meu. A voz estava um pouco diferente, mas o árabe era impecável até o último fio de bigode.
Chegou o dia de Brasil x Holanda e o final todo mundo já sabe. Fiquei contente por estar seis horas à frente e mais próximo do dia seguinte. Ouvi rojões e meu tio disse que era gente torcendo contra o Brasil. Que tristeza. Desta vez não tive nem o Sarney com suas belas palavras em árabe pra me consolar.

*Texto publicado na edição de 04/07/2010 do jornal O Diário, de Mogi das Cruzes.

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