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Às vezes dá uma vontaaaaade…

Haisem Abaki

05 de julho de 2013 | 13h44

Nesses últimos dias, está havendo uma dose exagerada no uso de um jargão jornalístico, ideológico, filosófico, sociológico, antropológico, demagógico, fisiológico e não sei o que mais “lógico”. Foi só o Congresso “trabalhar” pra fazer em poucas horas o que enrolou e engavetou por vários anos pra todo mundo sair por aí dizendo que, finalmente, houve “vontade política” dos parlamentares.
Eu mesmo já usei a expressão um número incalculável de vezes, até meus ouvidos sentirem dor de tanta repetição. O cérebro, coitado, também mandou avisar que não aguentava mais.
Tive vontade de me libertar e já faz alguns anos que só utilizo o termo “vontade política” no rádio para discordar e dizer que não se deve falar em “vontade política”. Fiquei ainda mais feliz ao ver que meus ídolos Aurélio, Aulete e Houaiss são bem diretos e esclarecedores sobre o tema. Vontade é vontade e pronto.
Ou então vamos passar a aplicar esse vício a tudo, tudo mesmo. As manifestações que tomam as ruas são fruto de “vontade protestante”? É isso? A reação foi só um caso de “vontade policial”? E o despertar de tantas vontades começou timidamente, com uma simples “vontade tarifária”?
Aí, foi uma sucessão de “vontade discursiva”, “vontade pactuada”, “vontade plebiscitária”… Dá pra acreditar mesmo ou é só “vontade enganosa”? Se for pra falar e escrever assim, vamos nos render a tantas vontades e martelar com vontade, seja qual for o assunto.
As crianças que tiraram notas altas e já estão em férias merecem receber os parabéns pela “vontade educacional” que tiveram. Vou fazer o elogio aos dois estudantes lá de casa.
Quem acorda cedo e com disposição para o trabalho, apesar do frio de rachar, também é digno de reconhecimento pela enorme “vontade laboral”. Pode até pensar numa “vontade salarial”, dependendo da “vontade patronal”, é claro.
E que tal deixar o mundo mais romântico? É só olhar para aqueeeela pessoa e demonstrar “vontade amorosa”. Mas antes é bom preparar o clima com uma “vontade gastronômica” ou outro programinha, como uma “vontade cinematográfica”.
Viva também a nossa Seleção! Aquela que cantou o Hino Nacional com “vontade patriótica em chuteiras”. Não foi tática, nada de Família Scolari e nem medo do bigode do Murtosa. Foi pura “vontade futebolística”.
Ainda estava pensando em outros tipos de vontade que tive vontade de citar, mas chego ao trabalho e a produção da rádio me entrega um monte de áudios para a abertura do jornal. Eram salvadores da pátria governistas, oposicionistas e oportunistas, todos cheios de boa vontade.
Alguns deles, além da “vontade política”, estavam bem à vontade pra viajar na maionese da “vontade popular” e em aviões da farra aérea brasileira. Escolhi as “melhores” sonoras, mas a vontade que me deu foi a de…
Melhor esperar a hora certa de soltar aquela “vontade varredora” de limpar tudo de uma vez. Em Bole-Bole ou Saramandaia (lá precisa de plebiscito), seria uma ideia “faxinante”. Ou “faxinatória”? Talvez “faxinatícia”. Aurélio, Aulete e Houaiss… É com vocês, mestres. É só ter um pouco de “vontade etimológica”.