As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

As grandes jogadas do playboy

Haisem Abaki

08 Novembro 2013 | 21h09

– Fala aí, playboy!
– E aí, véi?
A conversa foi flagrada numa “escuta ambiental”, mas não precisou de autorização judicial. Eram dois parceiros de grandes jogadas feitas com dedos leves no mouse e no teclado. Deixei o papo rolar mais um pouco pra ver até onde ia a ousadia dos danados.
E eles continuaram despreocupados, falando e se vendo pelo computador. Às vezes, riam sem nenhuma vergonha. Na tela, apareceram uns gatos e logo me lembrei do Garfield, aquele vagabundo.
Continuei atento e vi que os bichanos participavam de competições que exigiam muita habilidade. Bem, habilidade pra mim, que sou lerdo. Para o “playboy” e o “véi”, parecia moleza.
Mas às vezes surgia algum desentendimento entre os dois nas armações, principalmente quando o computador dava uma travada.
– Pô, mano, entra aí…
– Nooooossa mano, esse negócio tá “bugado”.
Fiquei desconfiado. Seria uma linguagem cifrada para despistar? E aí percebi que os gatos eram muito bem recompensados com moedas a cada jogada executada.
O carinha que eu vigiava exibia 974 moedas descaradamente. Em poucos minutos, sem muito esforço, ganhou mais 203. Não consegui fazer a soma de cabeça. Cadê a calculadora do celular? Ele acumulou 1.177 moedas brincando…
Saiu pela rua, comprou umas roupas e foi para a casa virtual. Um lugar bem amplo, mas que estava vazio. O rapazinho disse que pretendia mobiliar o ambiente mais tarde com a grana que já tinha e com a que ainda ia ganhar.
Na TV, o noticiário falava de falcatruas de fiscais que recebiam propinas. O garoto que eu monitorava me flagra ali e pergunta o que é propina. Respondi que era cobrar por um serviço indevido e roubar o dinheiro da prefeitura, que é do povo. Ainda fiquei na dúvida se alguém de dez anos entenderia daquele jeito.
– Ô pai, as minhas moedas eu ganho jogando honestamente…
Ele só estava num tal de “Mundo Gaturro”. Depois de me explicar como funcionava “o game”, me mostrou, o “Hero Zero”. Era outro jogo, no qual se fantasiava de herói para combater vilões como “O Zombador”, “O Poderoso Chefão” e “O Ladrão Olímpico”. O Super Moleque contou que a missão era “salvar a cidade” e logo me tranquilizou dizendo que “é tudo sem arma”.
Fiquei aliviado e vi que não tinha nada a temer ou a corrigir. A não ser…
– Vem cá, rapaz. Não dá pra você falar “véio” em vez de “véi”?
– Não, é “véi” mesmo…
Eu também já tive dez anos e dei um desconto, mas mandei o sujeitinho sair do computador e cumprir as “obrigações higiênicas”. Ele tentou resistir, pediu “só mais um pouquinho”, mas obedeceu porque fui firme e falei na “minha” língua.
– Fala aí, playboy. Vai tomar banho, véi.
Meu mundo, minhas regras, minhas palavras definitivas…