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As eternas oliveiras da Síria

Haisem Abaki

06 de setembro de 2013 | 20h52

Quando eu era criança, “zaitun” era uma palavra muito perigosa. Apesar da semelhança, demorei um pouco pra aprender que em português se falava “azeitona”. Meus pais ainda conheciam pouco a língua daqui e me alertavam em árabe para o risco de engolir o caroço. O medo aguçava ainda mais a minha vontade. Achava muito injusto eles se deliciarem com aquilo e eu não.
Aos poucos, fui sendo liberado para a degustação do fruto que está no paladar, na genética, na memória e na alma de todo sírio. Acho que isso é transmitido de geração para geração, mesmo que a criança tenha nascido a milhares de quilômetros do país de origem da família. Comigo foi assim.
Naquele tempo de comunicação a lenha, as viagens de “batrícios” para o Oriente Médio não eram comuns. Então, quando alguém ia para lá, a aventura virava notícia, um grande acontecimento. A casa do viajante recebia romarias de visitantes em várias noites de despedida e ele se transformava em portador de cartas, presentes e mensagens gravadas em fitas cassete, cheias de saudade e choradeira. Ô povo emotivo! Quem podia também mandava algum dinheiro para os parentes.
Mas eu, muito interesseiro, só pensava na volta do sujeito. As malas vinham forradas de retribuições, com roupas e alimentos típicos da região, além de cartas e mais fitas cassete, cheias de saudade e mais choradeira. Ô povo emotivo! Eu não queria saber daquela falação toda. Só me preocupava em ver se havia algum saco de azeitonas na bagagem. E elas sempre vinham pra me alegrar.
Azeitonas verdinhas, de gosto forte, ácido, picante e com caroços que se desprendiam facilmente. Comia aos montes, com pão sírio, ouvindo histórias do meu pai sobre as oliveiras da Síria. Os empórios árabes do Brás ainda são minha “perdição” até hoje.
Mas nada se compara a comer as azeitonas bem pertinho do pé, na mesa farta de tios e tias. Apesar da compulsão de “azeitólatra”, só compreendi o significado delas quando estive lá, poucos meses antes da explosão do conflito armado de agora.
Dizem que as oliveiras da Síria já existiam seis ou sete mil anos antes de Cristo. Também dizem que elas duram mais de dois mil anos, daquele jeito, baixinhas, com troncos retorcidos, quietinhas, assistindo a tudo.
Talvez tenham visto a criação do alfabeto, das artes, da arquitetura, do comércio, das grandes navegações, das guerras pelo poder. Passaram firmes e fortes pelas batalhas “em nome de Deus”. Enfrentaram bem enraizadas os mais de 400 anos de domínio do Império Otomano. Superaram a exploradora colonização francesa com calma de azeite lentamente derramado no prato. Resistiram às loucuras de falsos nacionalistas, golpistas e ditadores sanguinários. E assim vão permanecer depois das insanidades de assads, obamas, hollandes e fanáticos que vão contra a própria religião e se julgam representantes diretos de Allah com lugar de honra no Paraíso enquanto promovem o Inferno por aqui.
As oliveiras da Síria ficarão em pé mesmo diante da matança convencional considerada “aceitável” pelo “mundo civilizado”, que quer reagir com uma matança “humanitária” para combater a matança “obscena”. Porque os “salvadores” de plantão são como caroços e deles sempre vão se desprender as azeitonas verdinhas, de gosto forte, ácido, picante…