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As donas da bola

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 14h59

Publicado pela 1ª vez em 06/09/2008
– Fala pro papai que tem uma pia esperando por ele.
– Paaaaaai, a mamãe disse que…
– Eu já vou. Só vou terminar de escrever.
Não me importo em lavar louça e faço isso de vez em quando. Prefiro os copos, os pratos e os talheres. Não gosto muito das panelas e sempre as deixo por último. Aos sábados e domingos, sou arrumador de camas, desde que não esteja de plantão na rádio. Confesso que deveria ajudar mais, mas quero deixar claro que não tenho aquele antigo pensamento de que algumas coisas são para os homens e outras somente para as mulheres. Bem, mas essa questão doméstica fica para depois porque preciso contar uma história.
Coincidentemente, percebi que o tema que escolhi para hoje também envolve homens e mulheres, ou mais precisamente meninos e meninas. O cansaço de uma longa semana (não foi preguiça, eu juro) não me deixou acompanhar o treino de futebol do meu filho. Fiquei na cama, mas as duas mulheres da nossa vida levaram o pequeno e uniformizado atleta e torceram por ele.
O rapazinho leva jeito para a coisa. Não é uma opinião de pai coruja. Acho que entendo um pouquinho de futebol e percebo que o garoto tem postura, noção de posicionamento e um belo chute de esquerda, embora não seja canhoto. Às vezes ele faz umas jogadas que me deixam de olho arregalado, feito… uma coruja (é só uma matáfora, gente).
Basicamente, o treino tem três partes. Primeiro, o alongamento e uma preparação física. Depois, os fundamentos do futebol. E por último um jogo mesmo. Assim que chegou em casa ele me deu notícia, antes de dizer bom dia e de me dar um beijo e um abraço. Coisas assim podem ficar para depois, como a louça.
– Pai, eu fiz um gol de pênalti no melhor goleiro do time!
Arregalei os olhos (calma gente, só estava acordando) e pedi que ele fingisse que estava comemorando o gol. Ganhei um abraço.
A mãe do craquezinho me contou detalhes do lance, como se fosse Leandro Quesada descrevendo um gol depois da narração de José Silvério ou Ulisses Costa.
– Ele bateu muito bem. Sabe aquela bola que parece que vai pra fora e entra bem no cantinho? O goleiro pulou certo, mas não deu pra ele!
Foi um relato preciso, a não ser pelo fato de que ela não sabia se tinha sido de esquerda ou de direita. Percebi seus olhos arregalados, que também não eram de corujice.
Mas afinal de contas, onde entra nessa história a eterna disputa dos sexos? Bem, ele começou a contar o que os companheiros de futebol tinham feito: a defesa do João Marcelo, o chute do Pedro, o drible do João, as jogadas do Murilo, do Arthur, do Guilherme, o chute da Marina… Marina??? Isso mesmo, Marina. Tem uma menina no time! Nem tive tempo de arregalar os olhos porque logo “minhas duas repórteres de campo” relataram aquilo que só eu não tinha visto.
A cada cobrança de pênalti, os meninos gritavam o nome do garoto que ia chutar:
– Peeeeeeeeeedroooo, Joããããããããããããoooooo, Muriiiiiiiiiiiloooooo, Arthuuuuuuuur, Guilheeeeeeeeeeeeeerme, Viiiiiiiiiiiiiiiitor!
Chegou a hora da pequena Marina ajeitar a bola e se formou a corrente, mas a torcida mudou de lado e foi para o goleiro:
– João Marceeeeeeeeeeeeeloooooooooo.
Ela chutou para fora.
Achei graça, mas fiz o que penso que um pai, mesmo de olhos arregalados, deve fazer. Disse a ele para não incomodar a garota e tratá-la bem. Feito jogador de futebol em entrevista na saída do campo, ele respondeu:
– Mas eu gosto dela, pai. Era só brincadeira.
A história terminou e eu tenho uma pia à minha espera… Arregalei os olhos quando vi que alguém já tinha feito a jogada por mim.
– Niiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiilzaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!
Nem deu pra comemorar muito porque logo veio o cartão amarelo:
– A cozinha está interditada. Hoje não se suja mais nada nessa casa!
Arregalei os olhos, mas corri para o abraço. Adoro esse meu time!

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