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Aquele sujeito diferente

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 15h10

Publicado pela 1ª vez em 08/11/2008
Torci abertamente pela eleição de Barack Hussein Obama e sempre que podia destacava o segundo nome dele, que ficou meio escondido durante a campanha eleitoral. Para justificar essa preferência, poderia usar vários argumentos: históricos, sociológicos, antropológicos, psicológicos e até jornalísticos. Embora gostem de pregar a imparcialidade, jornalistas querem mesmo é poder dizer que foi eleito o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos. É uma frase que pega bem em qualquer situação, seja com ar solene ou com sorrisos e expressões faciais de contentamento.
No meu caso, a torcida não teve nenhum motivo jornalístico, acadêmico e acho que nem mesmo nobre. Fiz isso por interesses próprios. Talvez digam que sou uma pessoa traumatizada, que precisa se espelhar em alguém para saciar um desejo de vingança obscuro e adormecido desde a infância. Nada disso me moveu, mas confesso que torci infantilmente em nome do “menino diferente” que eu era aos sete anos.
Foi mais ou menos nessa idade que comecei a perceber que não era igual aos outros. Crianças são quase sempre sociáveis e amáveis, mas também têm uma sinceridade cruel. Na escola, eu era o único com nome árabe e o único filho de muçulmanos. Era também o mais branquelo, o mais quieto e logo passei a ser o único que usava óculos.
Os colegas achavam o meu nome engraçado e me chamavam de “Hai 200” (como se meu nome fosse “Hai 100”) ou de “Hai Hitler” (levantando o braço, no gesto característico do nazismo). Também era chamado de turco e alguns estranhavam porque eu ficava nas aulas de religião na escola católica (a direção disse a meus pais que eu podia ser liberado da disciplina, mas eles não quiseram).
Apesar dos problemas, sempre gostei de estudar. Algumas meninas até me tratavam bem, mas sem me fazer esquecer que eu era diferente.
– Nossa, você nem parece árabe! Você é tão branqueeeeeeelo!
Ainda ouço esses comentários hoje, mas já não sou mais branqueeeeeeelo. Sou apenas branquelo.
– Nossa, eu nunca vi um árabe palmeireeeeeeense, só corintiano ou são-paulino!
De vez em quando, ainda ouço esses comentários, mas já não sou mais palmeireeeeeeense. Sou apenas palmeirense.
Em 1973, quando os árabes perderam mais uma guerra para Israel, fui novamente alvo de gozações na escola. Parecia que o Palmeiras tinha perdido para o São Paulo ou o Corínthians.
Um dia fiquei com raiva do meu nome. Disse a meu pai que não gostava de “ser Haisem” e perguntei a razão de não terem escolhido outro, ainda que árabe, mas mais simples. Nem os amigos árabes da família entendiam direito e achavam que era “Hussein” e que teria ocorrido uma falha de comunicação entre meu pai e o homem do cartório.
Não houve erro. Meu pai explicou que quis me dar um nome diferente mesmo. Um nome que não estivesse no Corão ou na Bíblia. Na lógica dele, o filho só deveria ser identificado pela religião se a praticasse e não simplesmente ao dizer a alguém como se chamava. O tal Haisem tinha sido um sábio e alquimista que viveu num território que hoje corresponde ao Iraque. Haisem também seria um dos significados de “leão”, em árabe arcaico. Meu irmão mais novo ganhou o nome de Hizar, uma das denominações de “sabiá”, também em árabe arcaico.
Pensei em contar essa história na escola, mas achei que as gozações só iam aumentar. Mais tarde percebi que o argumento do meu pai era válido e bem-intencionado, mas incompleto. Meu sobrenome, Abdul Baki, revelava a religião da família. Nada mais muçulmano do que “Abdul” e o que vem depois. É na verdade um nome composto. O Abdul quer dizer “servo” e o que vem a seguir é sempre um sinônimo para Deus. No meu caso, é “Servo do Imortal”. Tambem achei melhor não passar a história adiante na escola.
Aos poucos, fui me acostumando com os colegas e eles comigo. Logo passei a ser identificado como “aquele Turquinho bom de Português” ou “aquele Turquinho bom de História e Geografia”. Não sei se me chamavam também de “aquele Turquinho ruim de Matemática”, mas vi gente não entendendo “como um Turquinho pode não gostar de Matemática”.
Hoje posso dizer que tenho orgulho das minhas origens e acho que não há motivo para ninguém se envergonhar disso ou para ser apontado ou diferenciado em razão de questões desse tipo. O próprio Barack (que quer dizer “abençoado”) teve que esclarecer que não é muçulmano como foi o pai dele. E se fosse, qual seria o problema? A América não aguentaria?
Na verdade, torço duplamente por Barack Hussein Obama. O “menino Haisem” torce para que ele não seja identificado apenas como “aquele primeiro presidente negro dos Estados Unidos”. O “Haisem de hoje” torce para que ele consiga finalmente “desembushar” o país da nefasta era sob o comando do atual presidente, “aquele branquelo que enxerga terroristas por todo lado”. Nossa, eu falando desse jeito! Será que isso pega?

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