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Amor em forma de pétalas

Haisem Abaki

21 Setembro 2018 | 09h25

Um compromisso me levou ao centro de Mogi, onde vivi até os nove anos. Fiz uma paradinha contemplativa diante de dois endereços, o da primeira “lodjínia” do meu pai e o da segunda, pra onde ele se mudou depois de muito trabalho duro. Mas depois fiquei mais tempo olhando para outro lugar, uma antiga floricultura.

Eu passava por lá todos os dias, a dona me cumprimentava na ida e na volta da escola e eu aproveitava pra sentir aqueles aromas que me encantavam. E era tanto encantamento que tive ali um primeiro desejo profissional mais consciente e nunca realizado: queria ser entregador de flores.

Mas a minha “carreira” começou mesmo como empacotador e fazedor de conta de troco da “lodjínia”. Depois fui office-boy, auxiliar de contabilidade, escrevente de cartório no Fórum, jornalista e professor ao mesmo tempo e agora “só” jornalista. A atração pelas flores nunca me abandonou, apesar da minha total inabilidade para lidar com “assuntos da terra”. Nunca soube plantar nada, mesmo sendo admirador da Primavera, que sempre foi e será a melhor estação do ano para mim.

A cada mês de setembro, era uma sensação gostosa de renascimento e de esperança. E aos poucos, já ganhando um dinheirinho, passei a ser um presenteador de flores a quem perfumava o meu coração. Rosas e cartões sempre ajudam a vencer a timidez. E, de algum jeito, virei entregador.

Só que foi num setembro que meu pai partiu inesperadamente deste mundo e eu não me dei conta de ter matado em mim o desejo constante de renascimento e a esperança. Passei a enxergar mais os espinhos, desconsiderei a linda flor que vivia ao meu lado, parei de enviar flores para a vida dela e me entreguei à depressão. O vento mudou por minha culpa e eu deixei cada pétala ir embora sem perceber a força e a beleza daquela flor que sempre me apoiou, me socorreu e tentou me resgatar.

O resgate aconteceu, mas demorou e foi doloroso. Passei a “desacreditar” das flores e achei que nunca mais iria sentir o perfume delas. Primeiro foi necessário mergulhar em mim mesmo e enfrentar culpas, medos e inseguranças. Aos poucos, a terapia foi me mostrando novas alamedas pela vida e que a Primavera poderia voltar.

E hoje já posso enxergar uma nova flor invadindo meu coração com seu aroma e suas pétalas vistosas. Uma flor que me entende com um simples olhar e que coleciona as pétalas que recebe de mim. Uma flor que concluiu o resgate de alguém que se sentia despedaçado. E é uma flor que consegue sorrir e oferecer carinho e cuidado mesmo quando está triste e sentindo dor. Uma flor que quero cultivar no jardim da alma por todas as primaveras da vida. Porque, além de me fazer renascer, ela me permitiu retomar um sonho de infância: virei entregador de flores. Para sempre.