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Amor bem explicadinho

Haisem Abaki

25 de fevereiro de 2013 | 14h57

Publicado pela 1ª vez em 24/03/2011
Do banco traseiro do carro, na volta da escola, vem uma voz de homenzinho que pergunta:
– Pai, amar alguém é uma coisa muito boa, né?
Olhei espantado pelo retrovisor, respondi com um “Claro que é!” e logo quis saber a razão de um menininho de 7 anos e 11 meses já expressar tal pensamento:
– Ah, é uma coisa boa, pai, mas não dá pra explicar…
Fiquei imaginando se alguém já teria despertado algum sentimento no moleque que dizem ser a minha cara e insisti com um “De onde você tirou isso?”. Minha versão melhorada me surpreendeu ainda mais:
– Ah, foi daquela história que você escreveu falando de mim lá no seu blog…
E eu, tonto, pensando que ele só entenderia daqui a alguns anos o último texto que publiquei! Em casa, tive a lembrança de um artigo que li sobre um “consultor” que dava dicas para encontrar “o amor da mulher certa”.
Aí, achei que eu, com a autoridade de “papai sabe-tudo”, tinha todo o direito de dar as minhas receitas ao rapazinho tão interessado no assunto. Resolvi deixar as sábias orientações por escrito para ele entender daqui a alguns… Minutos?
Não vou falar sobre coração batendo acelerado, suor, calafrios ou frases desconexas. Estes não são sinais exclusivos do amor. Aparecem também em outras situações, como andar de Montanha Russa, por exeeeeeeeeeemplo! Então, vamos aos fatos, meu garoto.
Se alguém especial, longe ou perto, for a última pessoa em quem você pensa antes de dormir e a primeira que invade a sua cabeça ao acordar, está explicado: é amor.
Se você sentir saudades repentinas várias vezes ao dia mesmo que a responsável por isso esteja ao seu alcance, está explicado: é amor.
Se a cada encontro você tiver vontade de fazer um brinde, ainda que seja com água ou suco num copo descartável, está explicado: é amor
Se você guardar na memória a voz suave de alguém com olhos penetrantes e um cheiro de uma fragrância que depois você descobre que é natural e não perfume, está explicado: é amor.
Se você puder contar seus segredos, falar um monte de bobagens e deixar que ela faça o mesmo, escutando com paciência, está explicado: é amor.
Se você permitir que a emoção role solta, sem culpa, sem vergonha e sem receio de se mostrar um cara sensível, está explicado: é amor.
Se você se encantar por uma pessoa que sempre tem palavras sensatas e adultas na hora certa, mas ainda gosta de bonecas e bichos de pelúcia, está explicado: é amor.
Se você se lembrar de alguém ao ouvir o Air Supply cantando “Making Love Out Of Nothing At All” e não achar a letra pesada e a interpretação exagerada em nenhum momento, está explicado: é amor.
Se você se identificar com o Elvis ou o Willie Nelson cantando “You’re Always On My Mind” e pedir desculpas por alguma besteira que tenha feito, está explicado: é amor.
Se você for capaz de ver o filme “Letra e Música” e de dar aquela reboladinha do Hugh Grant quando toca “Way Back Into Love”, está explicado: é amor.
Se você, num impulso, resolver fazer uma limpeza de pele pela primeira vez na vida (sim, machões de plantão, eu disse lim-pe-za-de-pe-le!) e ficar esperando que ela note alguma diferença, está explicado: é amor.
E, por fim, o grande teste. Se você conseguir jogar todas essas receitas no lixo e criar as suas próprias, ainda mais malucas do que as minhas, está explicado: é amor.
O importante é não ter medo de ser ridículo. Quanto mais, melhor. Aí, sim, vou ter a certeza de que você é mesmo a minha versão melhorada.
E se você perceber que ama de um jeito que não tem mais cura, finalmente, estará salvo. Está bem explicadinho, carinha? Se não estiver, relaxe. Inexplicavelmente, é sempre muito bom.

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