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Amarelo suavemente berrante

Haisem Abaki

28 de agosto de 2015 | 09h21

Correndo em direção ao parque, surge na minha frente uma mulher com um vestido amarelo. Tinha também brincos e uns penduricalhos que não sei descrever. Sou ruim pra essas coisas. Ela me chamou e pude observar um sorriso largo num rosto… Ah, não encontro uma palavra. Um rosto expressivo, talvez.

Não tive receio nem vontade de evitar a abordagem. De cara, me veio a lembrança da figura do meu pai. Ele sempre contava histórias de conversas com ciganos quando era jovem e ainda vivia na Síria. Dizia que eram pessoas inteligentes, mas muito discriminadas.

Fui interrompido nos pensamentos pela moça do vestido amarelo. Parecia ter uns 30 e poucos anos. Quarenta no máximo. E foi logo pegando na minha mão pra fazer a leitura. Nada contra. Mas fiquei sem jeito porque já estava suado e, principalmente sem dinheiro. Só um documento e um cartão pra pagar a água de coco.

Imaginei que ela não sacaria uma maquininha de cartão de débito ou crédito de alguma parte interna do vestido e falei gentilmente que estava “desprevenido”. A voz era “doce” e disse pra eu não me preocupar.

– Vai ser pelos seus olhos e pelos seus cílios grandes.

Eu sabia que um dia esses meus looongos cílios serviriam pra alguma coisa… E a simpática cigana de amarelo começa a falar intercalando olhares para a minha mão e para estes meus olhos “de perdição”.

– Olha, você tá passando por um momento de transformação. É coisa boa, muito boa. Tem alguém te devolvendo o que você achou que tinha perdido. E as estrelas sempre vão brilhar…

Aí ela largou a minha mão e eu fiquei ali, com cara de paisagem, achando que só tinha ouvido coisas genéricas e óbvias. Uma paisagem com olhos e cílios grandes com a certeza de que aquilo tinha sido uma “amostra grátis” mesmo.

– Passa aqui outra hora quando puder.

Agradeci e segui em frente. Ah, eu havia tirado os fones de ouvido pra conversar com a moça de amarelo. Entrei no parque, fui para a pista de corrida e coloquei os apetrechos nas “zoreia” de novo. Sempre deixo o tocador de música no modo “aleatório”. E veio Coldplay com a cor do vestido da cigana. Nunca tinha prestado muita atenção na letra de “Yellow”. Comecei a correr e fui controlando a respiração e notando o jogo de frases, que em alguns momentos repete palavras do verso anterior no que vem a seguir.

E a música já começa “me mandando” olhar para estrelas amarelas. E fala da pele de alguém e, claro, de um amor. E de uma transformação. E de atravessar um oceano. E de superar barreiras. Caraca, foi a cigana que escreveu esse troço?

Acabei pensando em alguém especial que fica muito bem de yellow. Que gosta de crianças e de bichos, que pensa mais no lado humano do que no material, que batalha sem perder a doçura, que do mau humor tira um sorriso. E que pega no meu pé porque sou marrento e mereço, mas que me devolve a cada dia a vontade de me permitir viver de novo sem culpa.

Mais detalhes com a cigana de amarelo ali da esquina. Mas ela já foi. Se ainda estivesse lá eu ofereceria uns morangos. Comprei junto com a água de coco no cartão. Cartão amarelo reluzente. Creio que a simpática cigana não terá dificuldades pra saber que corro às terças, quintas e domingos. Talvez seja o caso de levar um dinheirinho. E de comprar uma camiseta nova de corrida. Cor “amarela transformação”. Pra atrair bons pensamentos.

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