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Ajudar e deixar se ajudar

Haisem Abaki

31 Agosto 2018 | 11h57

Alguém que me ouviu falar sobre depressão vem me cumprimentar pela “coragem” de abordar abertamente um tema tão delicado e por ter admitido que procurei ajuda profissional. Agradeci pelas palavras, mas penso que não é uma questão de coragem tratar publicamente de um assunto sobre o qual ainda existe muito preconceito e desinformação.

Cada pessoa tem o seu tempo para entender e reagir diante das perdas e dos traumas que a vida impõe. Pode demorar dias ou anos. Pode ser de imediato ou levar uma vida inteira. Não dá pra exigir que todo mundo compreenda o que vai dentro de si mesmo e funcione com a precisão de um relógio para combater o problema na hora certa.

No meu caso, o tal relógio quase parou. Pior, andou para trás e me fez descuidar de mim mesmo e magoar pessoas queridas. Não tenho competência profissional para dar conselhos a ninguém nessa área. Eu simplesmente falo o que sinto quando tenho oportunidade e percebo que há receptividade. Não é assunto pra sair por aí comentando como se fosse uma polêmica qualquer de jogo de futebol em discussão de boteco.

Entendi finalmente que a terapia é fundamental para se enxergar a solução que vem de dentro e não de fora. A culpa não é “do mundo” e talvez culpa não seja a melhor palavra a ser usada. O caminho de volta não é fácil, não tem flores e nem sempre quem estava lá na sua partida estará esperando o seu retorno. Mas aparecem outras pessoas durante a caminhada, que pode ter uns tombos de vez em quando.

Pois no meu caminho surgiu alguém que estendeu a mão, me olhou fixamente nos olhos e me entendeu como se já estivesse desde sempre na minha vida. Alguém que costuma dizer que além de amar é preciso “gostar de amar”. E tudo isso se transmite em obviedades do dia a dia que a gente não consegue ver ou finge que não vê.

Viva a obviedade do sorriso! Viva obviedade dos olhos que brilham! Viva a obviedade de um abraço do tamanho do mundo! Viva a obviedade de um cafuné! Viva a obviedade de ouvir pássaros, sentir o cheiro das plantas e ver vagalumes numa noite de luar numa estradinha de terra!

E talvez a maior de todas as obviedades seja descobrir que você pode “se permitir” ser feliz. Porque às vezes a gente simplesmente não se permite ser feliz e se deixa ficar na prisão das convenções e correrias do dia a dia. E não se liberta de traumas, vícios, muros e fugas para situações mais fáceis que disfarçam e escondem o que precisa ser mostrado e enfrentado.

Eu fui ajudado e hoje, sem ser pretensioso, me sinto em condições de estender a mão e retribuir. Porque a vida surpreende e faz quem já ajudou alguém também ter momentos em que precisa de ajuda. Tenho muitas obviedades pra oferecer. Viva todas as obviedades da vida! A mais óbvia das obviedades é uma contradição. Amar contagia e cura!