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Achistas, achólogos e achólatras

Haisem Abaki

03 de abril de 2020 | 09h41

Aqui do meu quarto/estúdio ou estúdio/quarto, completando duas semanas de isolamento rompido apenas pela “tecnolomagia” do Rádio, ouço a sirene de um carro dos bombeiros na avenida ao fundo. Veio de imediato uma preocupação. O que aconteceu? Havia alguma vida em risco? O caminho parecia ser o de um hospital próximo e só me restou ficar na torcida pra tudo acabar bem.

Parado diante da janela, tive a ideia de desenhar pra ver se uns poucos negacionistas que ainda interagem comigo sem ofensas e xingamentos (eles quase sumiram!) conseguiriam entender o óbvio. Mas sempre fui péssimo no desenho e só me arrisco com as palavras. Vou tentar com as letras mesmo…

Faz de conta que está ocorrendo um incêndio. O fogo é bem longe. Ah, então não tem problema. Mas as chamas vão se alastrando por outros lugares. Tudo bem. É só um foguinho que não vai nos pegar. Pura histeria e nada mais. Vida de atleta que segue.

Mas o fogaréu vai aumentando e se espalha mundo afora. Aparece um bombeiro tentando organizar equipes para combater a tragédia e resgatar as vítimas. Não sei se o bombeiro é um cara bom ou ruim. Isso não importa agora. Precisamos apenas que ele saiba fazer o serviço emergencial e nada mais.

Só que um achista, chefe do bombeiro, fica com ciúmes daquele exibido e de outros que surgem para combater o fogo. E reclama que está tudo parado e que nem todo mundo precisa se proteger da quentura devastadora. Os bombeiros ignoram a falação incendiária e seguem com a operação. Ainda bem!

Só que o achista, apesar de isolado, não está sozinho. Aparece outro achista (ou já seria da categoria dos “achólogos?), apresentando uma teoria conspiratória: esse fogo aí é culpa de outro país, lá onde tudo começou, com interesses ideológicos obscuros. Não, não precisa ter provas. Basta jogar mais combustível na queimação.

Aí, surge outro achólogo publicando notícias falsas sobre “a cura” para as vítimas do incêndio. Também não precisa de comprovação nem de orientação de quem entende do assunto. Outros achólogos vão se juntando ao aterrorizante grupo, com previsões (ou seriam ameaças?) cada vez mais catastrofistas.

Apesar dos esforços, o fogo fica fora de controle. Então, finalmente, o achista começa a se dar conta de que alguma coisa está assando pra ele e anuncia algumas ações em “benefício emergencial” de quem sobreviveu ao foguinho. E logo reanima aduladores achólatras aglomerados em torno de sua figura.

Aqui, do conforto do meu isolamento e ainda podendo trabalhar, só me importo com aqueles que, além do risco do fogo, já sentem o estômago vazio. Eles, sim, precisam ser achados com urgência pra não depender apenas da solidariedade de quem pode dar uma força enquanto achistas, achólogos e achólatras fazem um debate fumacento para apontar de quem é a culpa pelo fogo no mundo imaginário em que vivem.

Diante desse terrível cenário, sinto que é um problema infinitamente menor e egoísta ficar preocupado com achólatras mais agressivos que podem insistir em ofensas e xingamentos. Não vou achar mais nada porque não há o que dizer a quem não tem argumentos, apenas ódio e achismos.

Aos poucos que ainda não se acharam, deixo uma pergunta óbvia que, espero, não seja tomada como agressão à inteligência de ninguém. Em caso de incêndio, quem é melhor chamar: o bombeiro ou o palpiteiro? Que os “desentendedores” entendam que é hora de união e não de discutir a “ideologia” do fogo. Palavras insanas lançadas ao vento também espalham a queimada pandêmica. Ao contrário do que acham os achistas, achólogos e achólatras, nesse combate, não é preciso agir como homem, apenas como ser humano.

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