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Aceita a urna que dói menos

Haisem Abaki

03 Outubro 2016 | 09h41

Não se deve começar um texto com um não, pregavam no passado alguns professores de redação e jornalistas. Recomendação polêmica, já não tão seguida nos dias de hoje. Então, não vou me patrulhar mais, não…

Não voto em São Paulo. Não votaria no candidato eleito como primeira opção se meu domicílio eleitoral fosse aqui. Não “ganhei” a eleição em Mogi, onde voto desde os 18 anos, em 1982.

Aliás, não tenho o hábito de “vencer” eleições. Nem me preocupo com isso. Foram tantas “derrotas” que, ao que me lembro, só fui “vitorioso” duas vezes para o governo paulista e uma para a Presidência da República. Prefeito de Mogi? Não! Nunca consegui que meu candidato fosse o “premiado”. Na Câmara dos Vereadores? Nada também.

Ah, mas não sou tão “azarado” assim. Já “ganhei” algumas eleições para senador, deputado federal e deputado estadual. Acho que meu candidato também já venceu uma eleição de síndico de condomínio. Então, não devo ser tão ruim de voto. Não ficarei com complexo de boca de urna por causa de meus sucessivos “fracassos” eleitorais.

Não sou eleitor do que chamam de “direita”. Nas primeiras votações de que participei, sempre votei em quem era o contra o Maluf e/ou a ditadura militar. Mas naquele tempo eu ainda votava movido muito mais pelo sim do que pelo não.

A melhor eleição foi a primeira presidencial, em 1989. Eu poderia votar em quatro ou cinco candidatos. E do lado de lá estavam outros quatro ou cinco nos quais eu jamais votaria. Por falar nisso, não conheço nenhum eleitor de Fernando Collor. Ninguém votou “nelle”, né?

Isso começou a mudar há dez anos. Desde 2006, sem interrupções em minha genial tática de sobrevivência cívica, tenho escolhido primeiro quem não quero para depois ver quem sobra. Enfim, o meu sim tem como referência, acima de tudo, o não. Não queria que fosse assim. Não me sinto orgulhoso por minhas atitudes de rejeitador quase paranoico.

Mas não estou bravo hoje. Não estou berrando nas redes sociais dizendo que as pessoas não sabem votar. Não acho a democracia linda quando meu candidato ganha e uma porcaria quando “perco” o meu voto.

Da mesma forma, prefiro o grito “Dá-lhe, Porco”, mas não nego que o “Timão, ê, ô” também tem lá a sua emoção, vai… E fico sensibilizado com os mantras islâmicos  chamando os fiéis para as orações, mas aprecio muito o canto gregoriano.

Não vou passar o dia procurando justificativas para o recado das urnas. Muito menos pondo a culpa nos outros. A culpa é sempre dos outros, não é mesmo? Culpa nossa? Nunca! Não, não e não. Mil vezes não.

Aos amigos adeptos do “só é legal quando eu ganho”, peço menos negação, por favor. Aceitar  a urna dói menos. E fiscalizemos juntos o eleito. Qualquer eleito. O que a gente gosta e o que a gente não gosta. O “perdedor” aqui agradece o penhor dessa humildade.