As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A verdade suprema do vigia substituto

Haisem Abaki

24 de fevereiro de 2013 | 14h18

Publicada pela 1a vez em 29/02/2008 10:00:00
Salomão Ésper está perto de completar 79 anos de idade e 56 de rádio. É uma das pessoas mais jovens que conheço. Cheio de vitalidade, acorda às 5 e meia da manhã, ouve Antonio Carvalho, José Paulo de Andrade e depois me dá o prazer da sua audiência, primeiro em casa e depois no carro, a caminho da Rádio Bandeirantes.
Ele sempre entra no estúdio no meio do último intervalo comercial do Primeira Hora, cheio de sacolas, jornais e cartas de ouvintes. Logo ajeita as bolsas com biscoitos de polvilho e bananas que vão abastecer a redação e põe a papelada sobre a mesa. A cena se repete diariamente, mas a piada nunca é a mesma. Quase sempre, depois de ouví-lo, volto do comercial com vontade de rir.
Outro dia, chegou achando graça de um comentário feito pelo vigia substituto da rua onde mora, ao vê-lo sair de casa com aquela parafernália toda. O titular havia se afastado após uma fratura na perna e o reserva fez o que parecia ser um elogio diante daquele senhor.
– Nessa idade e ainda trabalhando!
Reproduzida na voz do Salomão, a frase ganhou entonação mais forte no “ainda”, acompanhada de gestos efusivos com as mãos e uma nova versão.
– Velho, caindo aos pedaços e ainda trabalhando!
Nos dias que se seguiram, Salomão não contava mais piadas, mas chegava sempre com uma nova versão para a frase.
– Entrado em anos e ainda trabalhando!
– Dobrando o Cabo da Boa Esperança e ainda trabalhando!
– Jurássico e ainda trabalhando!
Logo se instalou entre nós o desafio de a cada dia renovar o elogio. Walker Blaz, Dedé Gomes, Dimas Aguiar e eu começamos a fazer novas versões, algumas, confesso, impublicáveis. As “politicamente incorretas” eram as que mais deixavam o Salomão satisfeito, mas só selecionei aqui as “menos piores”.
– Testemunha da destruição de Sodoma e Gomorra e ainda trabalhando!
– No outono da existência e ainda trabalhando!
– Contemporâneo dos faraós e ainda trabalhando!
– Sobrevivente da era pré-colombiana e ainda trabalhando!
A mais recente, mas provavelmente não a última, foi trazida pelo próprio Salomão, numa “parceria” entre o grande poeta Olavo Bilac e (quem mais?)… o vigia substituto.
– Na extrema curva do caminho extremo e ainda trabalhando!
Os elogios e as gentilezas que o Salomão certamente merece despertaram em mim um certo senso de observação para o tema. De repente, comecei a ver um monte de “vigias substitutos” à minha volta e percebi que, eu mesmo, já fiz esse papel.
Uma vez, na fila do caixa do supermercado, me abaixei rapidamente para pegar as moedas que uma senhora havia deixado cair.
– Vocês, moços, acham que um velho não consegue apanhar umas moedas do chão! Obrigada.
Uma amiga, na imensa fila de um banco, quis ser gentil com uma idosa que estava atrás dela.
– Olha, a senhora pode entrar naquela fila menor, de atendimento preferencial…
A mulher de cabelos brancos nem se mexeu.
– Aquela fila é para idosos, minha filha!
No metrô, um amigo se levantou para dar lugar a um homem bem mais velho.
– Ainda estou forte rapaz, pode ficar aí!
No desejo de fazer elogios e distribuir gentilezas, “os vigias substitutos” também se aventuram em comentários que nada têm a ver com a idade do interlocutor. Na Rádio Bandeirantes, fazemos todos os dias uma pergunta para participação da audiência. Numa das mais recentes, baseada na história de um chinês que pediu demissão envergonhado por ter dormido no trabalho, quisemos saber quais gafes os ouvintes já haviam cometido. Um deles se revelou um ótimo “vigia substituto”.
– Ao conhecer a irmã do meu patrão, perguntei para quando era o nenezão, mas descobri que ela não estava grávida.
Crianças também costumam ser “vigias substitutos”, mesmo sem a intenção de agradar. Foi assim com a minha filha, num restaurante japonês, ao ouvir do dono que teríamos que esperar meia hora por uma mesa.
– Mãe, tem outro restaurante japonês ali na esquina!
Minha mulher ficou sem graça, mas o homem começou a rir com a gente e decidimos esperar com paciência oriental.
No dia seguinte, madruguei pensando em mais frases para dizer ao Salomão. Já estava quase pronto para sair de casa quando ouvi um galo cantar. Não entendo bem de galináceos, mas não me pareceu ser o galo de sempre, que acorda quando já estou ajeitando os cabelos com os primeiros fios brancos. Talvez fosse o “galo substituto” a cacarejar.
– Nessa idade e acordando antes de mim!

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: