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A Pátria em besteiras

Haisem Abaki

07 de junho de 2014 | 13h00

Passamos os últimos sete anos lendo, ouvindo e falando palavras como “legado”, “arena”, “estádio”, “cidade-sede”, “atraso”, “gasto”, “padrão Fifa”, “chute no traseiro”. E a tal “Copa das Copas” saiu da paixão dentro das quatro linhas para se transformar em debate político. Virou assunto das torcidas organizadas. Não as futebolísticas, mas as partidárias.
E, no campo fértil das idéias tortas, das teorias conspiratórias e das manias de perseguição, o “Fanáticos Futebol Clube” e o “Esporte Clube Intolerantes” travam a batalha do bem contra o mal, do certo contra o errado, do quem não está do nosso lado é inimigo.
É um jogo pegado no qual todo mundo chega junto, chutando a bola, o adversário e o que mais vier. É sangue nos olhos, faca nos dentes e bordoada virtual pelas redes sociais.
Nessa partida, os times não têm o bom senso do meio de campo. É só ataque e defesa, chutão de um lado e chutão de outro. Se alguém fala das carências do país em educação, saúde e todo o resto, já é chamado de golpista, antipatriota e até de coxinha…
Se o sujeito diz que vai torcer pela Seleção e pinta o rosto de verde e amarelo, é alienado, governista… Qual é o antônimo de coxinha? Seria bolinho de carne? Seja como for, a impressão é de que estamos fritos. Os zagueiros patrulheiros dos dois lados só dão pontapés e dizem que não fizeram nada.
Então, não dá pra torcer pela Seleção e cobrar transparência nos gastos? Não dá pra gritar gol do Brasil e pedir punição para os dribladores do dinheiro do povo? Não dá pra se vestir de amarelo e ao mesmo tempo reivindicar dignidade nos serviços públicos?
Conheci um cara muito politizado que, quando eu tinha dez anos, na Copa de 74, me dizia que não se devia confiar cegamente em nenhum político, nem nos socialistas que ele apoiava. Na mesma época, “descobri” um cara que, apesar de ser estrangeiro, chorou quando o Brasil perdeu para a Holanda. Os dois caras eram um só: meu pai.
O jogo pode ser jogado em vários campos, com bola e com voto, com comemoração e com manifestação. E que os fanáticos e intolerantes dos dois times sejam colocados para escanteio. Agora, com a permissão dos zeladores da vida alheia, peço uma coxinha e um bolinho de carne em nome da paz, mas sem perder o espírito de luta. Luta limpa. A hora é hexa!

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