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A “pássara” do meu ninho

Haisem Abaki

08 Março 2014 | 19h08

Passei a infância ouvindo falar lá em casa de um desejo que nunca se concretizou: queriam me dar uma irmã. Meus cabelos compridos e encaracolados eram mais uma prova do “projeto” frustrado. Só me livrei deles lá pelos dois anos, quando mostrei “o passarinho” em praça pública diante de uma moça que me chamou de “menina linda”.
Mais tarde, ainda na era pré-histórica do ultrassom e da grande revelação só na hora do parto, quando nasceu meu irmão, soube que torciam, já na minha vez, para que fosse “uma turquinha” mesmo. Será que fizeram cara de espanto ao ver em primeira mão aquilo que exibi como um troféu para a garota da praça?
No começo, não entendia essa obsessão paterna e materna. Eles nem pareciam árabes “normais”. Os “batrícios” querendo primogênitos pra levar adiante o nome da família e eles loucos por uma menina! Mulheres árabes nunca perdem o sobrenome original e não acrescentam o do marido. E os filhos só ficam com o do pai. Então, o único jeito é… Olha eu falando do “passarinho” de novo.
Mas não era só isso. Eles pareciam seguir pela contramão em quase tudo o que era “convencional”. Na hora de me mandar pra escola, escolheram uma católica, mesmo sendo muçulmanos. E lá se foi para o colégio de freiras o ex-cabelo cacheadinho transformado em orelhudo e com nome esquisito, bem diferente do resto da molecada.
Entre os amigos mais próximos que frequentavam a nossa casa, também não era uma exigência ser seguidor de Maomé. Havia mais gente com crucifixo do que com a lua crescente na sala de visitas. Meu pai sempre vinha com um discurso de que somos todos iguais e até oferecia cigarros e bebidas alcoólicas, apesar de jamais ter sentido o gosto que tinham.
A vida foi passando e aquela conversa de ter uma filha ficou no passado. Até que o “turco” conheceu uma moça que levei lá em casa. Em pouco tempo, senti que o meu papel começou a mudar. Quando meu pai foi embora, isso ficou muito mais claro. O jornaleiro me deu os pêsames pelo meu “sogro”. A “filha” era aquela que sempre andava com o casal pra cima e pra baixo.
Só que um pouco antes de partir, o seu Mohamed ainda teve tempo de reviver a obsessão. Foi quando a “filha” e o “genro” anunciaram a gravidez. Ele não escondeu de ninguém que queria uma neta e até escolheu o nome: Vivian. E veio com um “papo-cabeça” de que ter primeiro uma filha era muito bom porque dava sorte e só atrairia coisas positivas para os pais da menina. Não sei de onde ele tirou essa maluquice, mas o fato é que tinha razão. Foi uma sucessão de acontecimentos, uma virada pra melhor em todos os sentidos.
Filha dá sorte, sim. E ainda traz “de fábrica” a doçura e o carinho que só almas femininas são capazes de ter. O moleque lá de casa também é amoroso e só trouxe felicidade, mas já tem voz grossa e agora me dá um beijo meio envergonhado, tirando para o lado. Refleti muito sobre o assunto e cheguei a uma conclusão “científica”. Deve ser o “efeito passarinho”.